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maio 16, 2009

maio 03, 2009

Uma saída nocturna com o amigo S.

O facto deste redactor designar uma pessoa por "amigo S." não se encontra directamente associado à leitura de O processo, da autoria de Franz Kafka. Enquadra-se exclusivamente numa estratégia de protecção de dados individuais semelhante à empreendida pela TVI durante o pico do processo Casa Pia, no qual um intrincado e desenvolvido sistema de distorção de voz e imagem dissolvia a identidade dos entrevistados, de tal forma que até os arguidos poderiam, eventualmente, realizar declarações comprometedoras contra si próprios sem levantar qualquer tipo de questão. Numa tarde de Verão, S. e este infeliz estenógrafo fizeram parte da assistência de um evento musical. Após uma rápida refeição numa praça de alimentação de um espaço comercial, no qual S. tentou engatar empregadas de uma célebre cadeia de fast-food, (cuja beleza seria apenas detectável por pessoas como o vice-presidente da ACAPO), assistiu-se à função. Posteriormente, dirigimo-nos para uma zona residencial da capital, onde poderíamos "engatar betinhas" (citando S.). Chegados a esse local por volta da 1:30 da madrugada, o presente contador tentou dissimular-se na penumbra, intento gorado. Nesse momento, um dirigente de uma importante associação profissional portuguesa encontrava-se a sair do seu BMW. S. dirigiu-se para ele, cumprimentando-o calorosamente e estendendo-lhe a mão de forma amigável. É necessário frisar que S. padece de um severo distúrbio de personalidade (clinicamente designado por Transtorno de Personalidade Histriónica) associado à megalomania. Logo, destrinçando alguém que aparece nos media, a sua tendência natural é, obviamente, saudá-lo como se de um amigo de infância se tratasse (um pouco na esteira do Emplastro, embora com menor grau de lucidez). Escusado será dizer, o senhor ia-se borrando de medo quando abordado de forma afável e ruidosa por um perfect stranger. S. facilmente detectou um elo de ligação com o seu interlocutor (o qual, na óptica deste recontador, seria extremamente oblíquo mas que, na lógica de S., propiciava um elevado grau de intimidade) e entabulou uma conversa bizarra com a desprecavida individualidade. Após alguns momentos, S. deu o diálogo por concluído e dirigiu-se para um café com ar de marroquino de fancaria onde, supostamente, iriam as "betinhas boazonas de Telheiras". De forma a contextualizar este passo, é necessário compreender que o habitat natural de S. é o do café, onde desenvolvem a sua actividade laboral pessoas que, devido à sua profissão, se encontram forçadas a dispensar-lhe alguma da sua atenção. Paralelamente, a qualidade dos cafés é o principal índice na avaliação de qualquer localidade por parte de S.. Em vez do PIB, teríamos o ICFPH (Índice de Cafés Fixes por Habitante) e assim Guterres nunca teria sido caçado em tal embaraçante figura pelos media. Voltando à vaca fria (a qual, neste caso, é um pervertido cheio de tesão que, provavelmente devido à sua capacidade de cativar pessoas, deve ser afligido por um mal crónico paralelo ao "cotovelo do tenista", o chamado "pulso do punheteiro"), após aquilo a que esta testemunha ocular designaria por tentativas de estabelecer romance a la Rudolfo Valentino de araque, o jagodes desistiu e decidiu regressar a casa. Fazer o quê, ninguém sabe, mas existem fortes suspeitas...

abril 25, 2009

Comemorações


Serve o presente texto para reflectir sobre o dia de hoje. Uma reflexão desinteressada focada em aspectos completamente irrelevantes, um pouco na esteira dos que tornaram Pacheco Pereira famoso. No dia de hoje desenrolam-se diversas comemorações do "25 de Abril" (incluo aspas graças ao esforço conjunto de Vasco Pulido Valente e Rui Ramos) e apenas penso numa ideia transmitida pelo interessantíssimo filósofo Roger Scruton no seu ensaio England: An elegy (London: Chatto & Windus, 2000). Scruton, um conservador empedernido, defensor do tweed e da caça à raposa (e, no mesmo caminho, do homoerotismo associado ao sistema das public schools britânicas), defende nesse livro de inspiração quasi-marxista (vide Benedict Anderson, Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism, London: Verso. 1983) uma ruptura entre celebração e realidade. O autor aponta que o esvaziamento da eficiência real de um evento é compensado pela sua hiper-celebração simbólica. Em termos lacanianos, o Real é traduzido para o Simbólico (com a consequente perda associada a esse processo). Dificilmente esse postulado poderia ser melhor aplicável ao "25 de Abril". Como referia o sociável e jovial José Mário Branco no FMI (Ser solidário, EMI-VC, 1982): "Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas". Poderia agora encetar um libelo acusatório a todos esses cabrões, filhos da puta, celerados, chulos, oportunistas e quejandos epítetos que celebram a data de hoje precisamente porque a mesma se tornou inóqua. Não o farei, porque creio que essas pessoas não merecem os meus insultos. Contudo, deixo um elo para um texto que, após o Tríduo Pachecal, representa uma visão in loco do evento que veio a ser semanticamente esvaziado de forma a legitimar uma choldra de oportunistas que se banqueteia com os parcos recursos de um país periférico. Este é para todos os que estiveram realmente envolvidos no processo democratizante e cuja voz já não pode ser ouvida. Quando os comemorarmos, não será de uma forma limitada e politicamente correcta, mas pela radicalidade efectiva das suas propostas.

Luiz Pacheco, O meu 25 de Abril

outubro 23, 2008

"-Era uma hipotermia, ó fachavor"

Um importante motivo para este autor ter permanecido ausente da criação de reflexões originais nos últimos tempos foi uma total mudança de vida. Não, este autor não alterou o nome para Lilly Marlene e começou a atacar pelas ruas do Conde Redondo. Também não contraiu uma doença venérea que fez com que a piça adquirisse uma suspeita tonalidade azul luminescente e caísse. Simplesmente mudou de coordenadas geográficas e culturais. Não que não estivesse satisfeito com o belíssimo Portugal, sabiamente dominado pelos geniais e fabulosos líderes, como Gabriel Alves ou a astróloga Maya, personalidades que controlam de forma absoluta e encapotada os destinos do país. Manipuladores das marionetas políticas ou das pedras do xadrês administrativo, o seu cinismo chega ao ponto de, ocasionalmente, tecerem comentários sobre assuntos relevantes. Todavia, o amanuense destreinado encontra-se a divagar sobre questiúnculas que não são para aqui chamadas. A principal questão que o presente escriba quer lançar na praça pública (por entre os cagalhões de cão e a urina dos respectivos donos) relaciona-se com hipotermia voluntária. Instado para participar em raides nocturnos por alguns dos mais bem frequentados espaços de diversão nocturna do Nordeste inglês (não confundir com as paneleirices associadas ao Escutismo - peço antecipadamente desculpa a Nélson Camacho por ter utilizado o termo "Escutismo"), o narrador foi confrontado com uma bizarra situação: o universo feminino local tem como principal fonte de inspiração estilística o Cais do Sodré. Isso faz com que a polícia da cidade na qual o autor reside não tenha departamento de Costumes. Esse facto explica-se pela douta informação que me foi fornecida: "-A polícia não tem formas de distinguir as putas das outras mulheres." Por muito chocado que ficasse ao início, este recontador cedo se habituou a essas práticas e deixou de oferecer dinheiro às senhoras depois de uma esfregadela sorrateira, o que se revelou muito positivo para o seu orçamento. Agora, caro leitor, imagine um molho de grelos brancas como a cal a passear de minissaia com quatro graus de temperatura. Pele-de-galinha em corpo de lula. Consequentemente, algumas "senhoras", graças ao efeito milagroso do álcool, adormecem, envergando esses preparos, nos bancos de jardim espalhados ao longo do percurso para casa. Isso traduz-se em hipotermia derivada da indumentária concebida para essas temperaturas (top e minissaia). Algumas dessas personagens chegam, inclusivamente, a congelar e morrer. Conclusão, cuidado com as gajas que fodem nos bancos de jardim...elas podem não estar a ser simpáticas em deixar-vos usufruir de todos os orifícios com que Deus Nosso Senhor as presenteou.



setembro 04, 2008

Pensos Romenos, s.f.f.

Todos tivemos momentos em que nos cruzámos com simpáticos cidadãos oriundos das nações dos Cárpatos que comerciavam objectos do dia-a-dia. Quer seja o Borda d'Água, a Cais ou pensos rápidos, dificilmente cruzamos uma artéria citadina sem que nos seja proposta a aquisição desses bens essenciais. A referência à Roménia neste caso é explícita e não aponta para qualquer tipo de xenofobia. Ao contrário dos mais destacados intelectuais de esquerda, este autor não tem quaisquer pruridos em referir o país de origem desses indivíduos. Aliás, a omissão desse factor aponta para uma falsa consciência acerca do mesmo. Recusar a designação "romenos" àqueles indivíduos é expurgar-lhes parte da sua identidade. Seria como referir-me a Alberto João Jardim sem destacar o seu refinadíssimo sentido de humor e a boa educação. Um verdadeiro sacrilégio na sacristia da política internacional entre dois estados soberanos, Portugal e a República Popular das Bananas da Madeira. Num dia solarengo e cálido, uma vendedeira de pensos (rápidos) abeirou-se de um cavalheiro numa esplanada. O distinto senhor, sobejamente conhecido pela sua prática alcoólica associada à violência doméstica (um verdadeiro marialva da "classe operária") e pelas apuradas capacidades de direcção de motorizadas indagou à pobre e olorosa rapariga quanto ela auferia diariamente. Num sotaque inconfundível de Sibiu, a ciganita respondeu que ganhava entre dez e quinze euros diários. O senhor apresentou-lhe uma delicada e altruísta proposta: "-E não queres ganhar vinte euros numa horinha?". A rapariga assentiu e ambos se deslocaram a uma casa de banho pública. Apesar de não aparentar qualquer problema de saúde, o senhor devia encontrar-se extremamente ferido. Para gastar vinte euros de pensos e o curativo se prolongar por uma hora, a ferida teria que ser, forçosamente, de grandes dimensões. Possivelmente, teria sido infligida numa rixa entre este e o portão de casa aquando do seu regresso. O marceneiro (não Alfredo) ainda hoje transita na motorizada e na bebedeira. Afinal, a imigração permitiu que se salvasse uma vida. Não são só os médicos da Europa Central e Oriental que nos podem ajudar. Às vezes, basta um penso rapidinho no sítio certo.

agosto 23, 2008

Princípio de Realidade

Todos temos pelo menos um amigo que pensa que qualquer mulher que lhe responda demonstra uma paixão assolapada escondida no mais íntimo do seu ser. Essa alucinação mostra um défice naquilo que Sigmund Freud designou por "princípio de realidade" (Neue Folge Der Vorlesungen Zur Einfürung in Die Psychoanalyse, Wien: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 1933). A ausência total de noção do mundo real é um traço recorrente em algumas personalidades claramente psicóticas. Quando a mesma pessoa revela em público: "-Os meus peidos não cheiram mal" deve ser levado a sério e prestes internado numa casa para maluquinhos. Um dado relevante até agora ocultado pelo narrador: a alimária não dispõe de sentido olfactivo devido a uma doença do foro respiratório. Ou seja, porque não consegue cheirar, depreende que não há cheiro. O subjectivismo empirista levado ao extremo. Isso torna-o um fantástico estudo de caso para a validação da filosofia de George Berkeley (A Treatise Concerning the Principles of Human Knowledge). Nesse importante tratado, central no desenvolvimento do idealismo alemão (causando grande impacte no pensamento de Fichte), o autor explana uma teoria que se baseia na constituição de um Mundo exterior de Ideias. Criticando o empirismo postulado por John Locke, Berkeley afirma que, se o conhecimento humano se baseasse exclusivamente na percepção e se esta apresentasse anomalias, o sujeito construiria um Mundo distorcido. Um mundo distorcido em que o sujeito em causa se revê como um conquistador femeeiro, quando toda a gente sabe que deve ter as palmas das mãos mais peludas que o Tony Ramos. Enfim, um verdadeiro quadro de Dali. A coisa torna-se mais grave quando o espécime tenta cantar sobre a música emitida pelo auto-rádio sem acertar uma única nota, mas considerando-se um autêntico Sinatra. Por vezes, este autor pensa que se está a tentar bater o recorde do Guiness para a conversa mais estúpida de todos os tempos. Desde megalomanias empresariais à importação de Viagra da China, tudo é assunto aflorado e posteriormente esmiuçado nessas tertúlias. Todavia, tudo refina no que toca à interacção com o sexo feminino. Que o presente escriba saiba, é uma psicopatologia grave entender que uma pessoa que o repele com asco se encontra perdidamente enredada num amor que desponta. Aliás, esse tipo de relação foi alvo de diversas resoluções judiciais fascinantes. Este autor requer, encarecidamente, que nenhuma empregada de balcão sorria na presença desse sujeito cognoscente, sob pena de assédio na sua forma mais explícita e infantil possível. Grow up, will you?


agosto 22, 2008

A revolução contínua (Mao)

"Para terminar: nessa indescritível apoteose feita ao Exército e à Marinha em Braga, ao comemorar-se o décimo aniversário deste movimento, milhares de pobres homens pobremente vestidos levantavam ao alto, para que fossem bem vistos de todos, cartazes com esta inscrição: a Revolução continua. E eu pergunto se, enquanto houver uma nuvem de perigo externo, um germe de desagregação interior, um português sem trabalho ou sem pão, a Revolução não há-de continuar!" 


António de Oliveira Salazar, Discurso proferido em Lisboa nas comemorações do ano X da Revolução Nacional, 28 de Maio de 1936. Publicado em Discursos e notas políticas, vol. II, Coimbra Editora, Lda., 1937


Pessoalmente, entre todos os Salazares, prefiro este:



agosto 17, 2008

Observação muito sábia

Esta foi roubada de forma assumida e simpática deste local absolutamente fascinante:

Shrewd observer"You've had way too much cock in your mouth to be vegan."

agosto 13, 2008

agosto 12, 2008

A loira

A loira vai-se casar, mas o noivo não sabe que ela já não é virgem...

Para não o decepcionar na lua-de-mel, resolve perguntar a uma amiga o que deveria fazer. A amiga deu-lhe a ideia de, antes do sexo, ela pedir-lhe para ir à casa de banho enquanto se arranja para ele e, nessa altura, substituir o hímen por um pequeno balão.

Aceitando a sugestão, na hora H a loura pede ao marido que vá à casa de banho enquanto ela se prepara para ele. Quando ele regressa ao quarto, ela já está pronta em cima da cama, com uma pose sensual, à espera. O marido entra com os preliminares e, na altura da penetração, ouve o pequeno estouro. Ele assusta-se, interrompe o acto, olha para o pénis e fica estático. Ela imediatamente pergunta: 

- Que houve, amor? Nunca viste um hímen?? 

O marido responde:

- Sim, mas nenhum que dissesse FELIZ ANIVERSÁRIO!!!

agosto 11, 2008

"-Vou às Mulheres!"

Este fugaz episódio ocorreu durante uma noite em que o álcool evolava o seu anestesiante eflúvio na cabeça do presente escriba. Porém, a sua veracidade foi confirmada no pós-guerra química estomacal do dia seguinte. Um companheiro ocasional de copos e conversa que, para não revelar a sua identidade, será denominado Pink Floyd foi o protagonista desse momento mágico. O Pink Floyd, resultado de uma árvore genealógica de alcoólicos frutos fermentados no meio rural da Saloiolândia, trabalhava com lixo. Quando o autor utiliza a expressão "trabalhava com lixo", emprega-a no sentido literal. O Pink era lixeiro, não era assistente social nem guarda prisional e, muito menos, porteiro da Assembleia da República. Herdeiro das sequelas de avoengo alcoolismo, Pink fazia jus ao seu património heráldico. Numa plácida e tépida noite de Julho, enquanto o proprietário da capela ao deus Dyonisos (estavam à espera da referência ao equivalente romano, não estavam? Cabrões! Lixei-os bem!) perorava acerca da putefice das sapateiras, que se espojavam com as dez patas abertas à espera que as comessem, apareceu o Floyd. Acampou ao balcão, onde filosofava fluentemente, na medida do possível, acerca de qualquer assunto de actualidade. Presumi que tecesse considerações ao programa nuclear iraniano. Enquanto aflorava as complexas teorias de fissão e fusão atómicas (seguramente era isso que chegava aos ouvidos do presente autor ou, pelo menos, aquilo que este entendia estar a ouvir), bebia calmamente a sua jola. O estimado leitor certamente reparou que o contador utiliza termos da gíria, de forma a enfatizar a demonstração da estirpe do mangas. À saída, Floyd assaltou o autor com a seguinte expressão "-Vou às mulheres!" antes de vestir o colete retroreflector e ligar a acelera. Entretanto este tabelião relembrou que, inconscientemente, a distinta personalidade protagonizou o momento do mais eivado republicanismo a que pôde presenciar. Num povoado em que, periodicamente, se realizava uma alegoria histórica ambulatória, o Pink foi abordado com a questão: "-E de que é que vais [vestido] este ano?" Retorno pronto e sábio: "-Vou de rei ou de outra merda qualquer!" Cremos que essa resposta não chegou aos ouvidos de D. Duarte ou do Rei dos Frangos, refastelado no seu sobranceiro castelo leiriense. 

agosto 01, 2008

Une négresse

Une négresse par le démon secouée
Veut goûter une enfant triste de fruits nouveaux
Et criminels aussi sous leur robe trouée
Cette goinfre s’apprête à des rusés travaux :

A son ventre compare heureuses deux tétines
Et, si haut que la main ne le saura saisir,
Elle darde le choc obscur de ses bottines
Ainsi que quelque langue inhabile au plaisir.

Contre la nudité peureuse de gazelle
Qui tremble, sur le dos tel un fol éléphant
Renversée elle attend et s’admire avec zèle,
En riant de ses dents naïves à l’enfant ;

Et, dans ses jambes où la victime se couche,
Levant une peau noire ouverte sous le crin,
Avance le palais de cette étrange bouche
Pâle et rose comme un coquillage marin.

Stéphane Mallarmé (Les poésies de Stéphane Mallarmé, Paris: Éditions de la Revue Indépendante, 1887)

julho 30, 2008

Soneto III

A certa moça, chamando velho ao autor, que ainda se não tinha por tal

Não te escondo a guedelha encanecida,
Nem da rugosa fronte a cor já baça;
Conheço que o meu lustre, a minha graça
Foi por duros Janeiros destruída:

Confesso, ainda que é iá bem conhecida,
Que a idade minha dos cinquenta passa;
Mas juro que ainda tenho grossa maça,
Qual teso mastaréu a pino erguida:

Se és hidrópica mestra fodedora,
Daquelas que procuram com trabalho
Lanzuda porra, porra aterradora:

Minhas cãs não te sirvam de espantalho;
Põe à prova o teu cono, e sem demora
Verás então se é velho o meu caralho.

António Lobo de Carvalho (Poesias joviaes e satyricas: colligidas e pela primeira vez impressas, Cadix, 1852)

julho 08, 2008

Lista de Casamento

Este reconto encontra habitáculo numa terreola que se tem afirmado enquanto genuíno burrié no nariz do globo terrestre. Duas mulheres, claramente mãe e filha, entraram numa loja conhecida pelos seus mamarrachos de distintíssimo requinte, ao gosto das mais prestigiadas leitoras da Nova Gente pululantes em todo o Portugal rural. Interrogam a funcionária sobre a possibilidade de encetar uma lista de casamento nesse estabelecimento. À resposta afirmativa, explicam que se destina à irmã da adolescente presente, que se iria unir pelos nós de correr do santo matrimónio. Transcorridos alguns minutos na selecção de itens a integrar a lista, a funcionária (criaturinha obcecada pela respeitabilidade, dado que a remete, infalivelmente, para os estratos populacionais cuja dimensão dos sonhos se apresenta na razão inversa ao rendimento e ao QI) atirou a seguinte pergunta à jovem fêmea: "-E tu, não gostavas de te casar?". Pausa longa. A rapariga transmuta-se nesse momento, como se um espírito malino a possuísse ou as línguas de fogo pentecostais se apropriassem do aparelho fonador. "Et apparuerunt illis dispertitae linguae tamquam ignis, seditque supra singulos eorum; et repleti sunt omnes Spiritu Sancto et coeperunt loqui aliis linguis, prout Spiritus dabat eloqui illis." (Actus Apostolorum, 2: 3-4). Alterando a tessitura vocal, a núbil adolescente replica, de forma a enfatizar a sua candura: "-Eu quero é pichota! Eu quero é foder!". Seguiu-se um momento de silêncio, em que o êxtase contemplativo da funcionária se fixou e substanciou nas suas fuças muares. Todo o universo pequeno-burguês se desmoronou num ápice, como se as trombetas de Josué soassem às muralhas de Jericó. A rapariga expôs o interesse em ser penetrada nas entranhas repetida e ferozmente, como se a sua cona fosse o túnel do Rossio. É caso para dizer que nem um valente carregamento de Lauroderme (passe a referência publicitária) reduziria os efeitos da assadura resultante de tão arreigado desejo. Pelos vistos, a inocente adolescente queria ser mais montada que os póneis da Feira Popular. Por favor, não matem os sonhos da juventude! 


junho 30, 2008

A língua lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

Carlos Drummond de Andrade (O amor natural, Editora Record, 1992)

junho 28, 2008

Bibi

Este texto não se reporta ao proprietário do anorak vermelho com melhor corte a figurar na televisão. Motorista acusado de, alegadamente, ter "empurrado o cocó" a diversas gerações de crianças desvalidas (que, na sua pobreza de Cristo, trajam exclusivamente roupa de marca). Facilitador de digestões, arguiriam alguns. Aparte maldoso: a Casa Pia de Lisboa mantém um grupo de gaitas-de-foles. Nunca a expressão inglesa blowjob foi mais sabia e adequadamente empregue. Excluindo a libido exacerbada comum a ambos, não se destrinçam elementos partilhados pelos dois Bibis. Basílio de Brito (que subscreve "Bibi" nas suas missivas) é um dos principais personagens do romance O primo Basílio, de Eça de Queirós. Janota, cosmopolita, sofisticado, mefistofélico, luciferino e devasso, embrenha a casta e burguesa prima numa rede de luxúria, metamorfoseando-a numa fodilhona de elevadíssimo coturno. Basílio urdiu uma trama sórdida de desenfado e consequente perdição, tão característica do entediante meio burguês da época. Um passatempo carnal que revela a elevada categoria do gentleman em questão, o qual, podendo optar por uma panóplia de actividades, decide partilhar uma fracção do seu atulhado calendário numa acção de formação da conaça familiar. Derramando os eflúvios da dissolução na prima enquanto o marido desta se encontra num local distante, esse cavalheiro só pode deter um estatuto de eminente herói para o universo masculino. Lanço aqui um apelo a todas matulonas que mantêm um enfadado casamento a abrir as bem torneadas e depiladas gâmbias aos amanuenses resposáveis pelo presente pasquim. Por favor, não encarem esse acto como vilipêndio aos sagrados votos enunciados na presença do Senhor (e na ausência destes senhores em particular), mas como uma espécie de mecenato cultural. De momento, poucas coisas poderiam agradar sobremaneira aos presentes escribas como longas sessões de pouca-vergonha no entrepernas de belas mulheres casadas. Isto porque, se emergir alguma turbação no horizonte da relação torna-se sempre possível sugerir-lhes a frutuosa actividade de "andar de baloiço nos cornos do marido". Na galeria queirosiana dos horrores, os editores do presente espaço admitem partilhar traços comuns com diversas personagens, sendo um misto do sobredito Basílio de Brito, João da Ega e Fradique Mendes. Qualquer dia, os autores também serão cônsules em Newcastle como tu, meu caro José Maria...


junho 22, 2008

Solilóquios da Vulva

Esta artigalhada pretende denunciar diversas fraudes ocorridas no passado recente. Uma das mais desapontantes surpresas na vida do autor foi a apresentação de Os Monólogos da Vagina no Casino Estoril. Um indivíduo agrupa um grupo de elementos do sexo masculino, pratica uma bárbara refeição e desloca-se ao teatro. Aquando da chegada, depara-se com uma burla qualificada: o espectáculo consiste numa actriz a declamar textos com a boca. Balde de água fria. Afinal, tratava-se de uma peça de teatro da autoria de Eve Ensler. Se, por um lado, fizeram constar ao autor que existiam "atletas vaginais" de todas as estirpes a circular pela Internet, sempre permaneceram dúvidas acerca da capacidade desse órgão na articulação de um discurso coerente. Expelir bolas de ténis de mesa (e não do popularucho pingue-pongue), engolir tacos de basebol ou emanar flatulência, tudo bem. Agora, falar? E pior, já não basta uma mulher falar com a boca, ainda se encontraria dotada de uma espécie de boca secundária. As admoestações bucais não serão suficientes, têm que ser reforçadas pela vagina? Transformar uma área nobre das mulheres numa vulgar fonte de fofoca e coscuvilhice? A ideia não é, contudo, nova. Já Denis Diderot redigiu o romance Les bijoux indiscrets (anonimamente publicado em 1748) focando esse assunto. Revoltante é a publicidade enganosa em torno de Os Monólogos da Vagina. Quantos espectadores terão sido ludibriados por esta falsidade? Mais ou menos que os que pagaram o seu ingresso para assistir a Aniki Bobó e verificaram, já com a porta fechada e encurralados pelo breu da sala, que Anikis há muitos, mas Bobós nem vê-los! Pior que isso, só aquando da deslocação realizada especificamente para assistir a Pinóquio e o Grelo Falante. A subsequente constatação da existência de uma gralha tipográfica fez desmoronar todos as expectativas criadas em torno do espectáculo. Na assistência, encontrava-se uma quantidade enorme de crianças dispersa em molhos de brócolos e alguns adultos que, claramente, foram levados ao engano pelo mesma razão que o autor. Mais literacia e menos aldrúbias, se faz favor!


maio 29, 2008

My Kind of Girl

Dean Martin, Ladies and Gentlemen.

Outra gravação histórica:

Sinatra-Basie: An Historical Musical First (Reprise, 1962)

She walks like an angel walks,
She talks like an angel talks,
And her hair has a kind of curl,
To my mind, she’s my kind of girl.
She’s wise like an angel’s wise,
With eyes like an angel’s eyes,
And a smile like a kind of pearl,
To my mind, she’s my kind of girl.
A pretty little face,
That face just knocks me off my feet,
A pretty little feet,
She’s really sweet enough to eat.
She looks like an angel looks,
She cooks like an angel cooks,
And my mind in a kind of whirl,
To my mind, she’s my kind of girl.
Hmmm, pretty little face,
That face just knocks me off my feet,
Pretty little feet,
She’s really sweet enough to eat.
She looks like an angel looks,
And she cooks like an angel cooks,
And my mind in a kind of whirl,
To my mind, she’s my kind of girl.
Yes, my poor heart’s in a whirl,
She’s just my kind, she’s a girl.
And I’m glad.


Ilustração: