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agosto 27, 2008

Cause and Effect

the best often die by their own hand 

just to get away, 

and those left behind 

can never quite understand 

why anybody 

would ever want to 

get away 

from 

them


(Charles Bukowski, Septuagenarian Stew,  Black Sparrow Press, Santa Rosa, 1990)



Cesare Pavese (9 de Setembro de 1908-27 de Agosto de 1950)


"I suicidi sono omicidi timidi. Masochismo invece che sadismo." (Il mestiere di vivere, Einaudi, Torino 1952, p. 405)

julho 25, 2008

Carruagem 22, Lugar 82

Viajar de transportes públicos comporta dois aspectos essenciais: masoquismo e paciência. Todavia, é nos transportes que se desenrolam as situações mais surreais neste torrão a que chamaram Portugal. Encontram-se obviamente excluídas desta afirmação a Assembleia da República e as Assembleias Gerais do Sport Lisboa e Benfica. Seria estúpido não referir esse ritual de socialização (a la Erving Goffman de Interaction ritual: Essays on face–to–face behavior, Anchor Books, 1967) neste espaço que se espera de pura instrução à populaça ignara (como os escritos da forja de Vasco Pulido Valente, autor a quem muito prezamos, apesar da brandura de sua escrita). O autor entra na carruagem e repara que lhe reservaram um lugar no espaço destinado a quatro pessoas (duas a duas e frente-a-frente). Nos três restantes assentos encontrava-se um grupo muito particular. O homem de meia-idade envergava uma camisa aos quadrados e apresentou uma tatuagem a tinta de esferográfica, possivelmente realizada numa das suas estadias em Angola, onde se entreteve a massacrar pretos. A velhinha, obviamente senil, passou todo o trajecto a suspeitar que havia sido esportulada pela funcionária do lar em que se encontrava (e, a nosso ver, muito bem) depositada, visto ter pago 75 euros no cabeleireiro para obter um look similar a uma lontra com permanente. A mulher de meia idade, companheira do senhor que bebericava uma lata de Sagres no comboio (às 9:30 da manhã, claro está) era uma personagem "esculpida em toucinho", expressão carinhosamente gamada a Fialho d'Almeida (Pasquinadas: jornal dum vagabundo, Civilização, 1890). Quando o autor se aproximou, denotou um fedor fétido no grupo, que logo atribuiu à velhinha. Claramente, a senhora estava morta e decomposta e ninguém a avisara previamente do facto. Que falta de chá, esquecer-se de notificar uma pessoa da própria morte. Resumindo, um verdadeiro calvário de três horas e sem promessa de ressurreição. Um momento ficará para sempre retido na memória do escriba destas linhas: o homem perguntou à velhinha se tinha trazido e a velhinha respondeu afirmativamente. Depois, a velhinha sacou da carteira (e friso as palavras "velhinha" e "carteira") dois DVD's pornográficos feitos em Portugal. Ainda embrulhados no celofane primordial, espécie de hímen na sociedade contemporânea, aura de pureza mesmo quando, claramente, nenhum dos intervenientes no filme era virgem. Ao assistir a essa cena, a mulher de meia-idade, ruge das profundezas de pregas nos foles do seu acordeão carnal a expressão: "-Mas que tara!". Aparte do semblante carregado de orgulho do cavalheiro, notoriamente cinéfilo e apreciador de espectáculos de elevado gabarito, as reacções foram parcas. É pena, pois alguns cientistas estariam concerteza interessados em estudar as práticas reprodutivas do casal de meia-idade. Qualquer coisa entre um tsunami de banha abatendo-se gelatinosamente sobre um fuinha subnutrido. É por essas e por outras que o autor defende a obrigatoriedade da lipossucção em certos casos, desde que o remanescente não seja enviado para uma fábrica de torresmos.

junho 16, 2008

Porcarias literárias

O moralismo de matriz burguesa emergente a partir do final do século XVI veio a determinar cânones estéticos que se enraizaram por um extenso intervalo cronológico. Associado a dispositivos censórios de forte carga religiosa, esses elementos condicionaram de forma marcante a produção artística da época. Tendo em conta os comportamentos do clero da altura, cuja libertinagem e dissolução fizeram as delícias de todos os orifícios de jovens ou idosas criadas, um paradoxo configura-se. As vítimas desse draconiano e multiramificado processo foram sendo imoladas pelo fogo por toda a Europa, num churrasco crepitante de opiniões. Contudo, o refluxo dessas práticas continua bem presente na actualidade. Por outro lado, alguns autores transformaram a transgressão racional dos moralismos numa forma de arte. Uma das figuras fulcrais nessa prática foi Donatien Alphonse François de Sade que, além das suas preocupações de marquês, se dedicou à escrita e prática de uma moralidade intrínseca à sua natureza. Abordando uma panóplia de situações, nas quais o poder é integrado numa perspectiva coreográfica mecanicista (Roland Barthes, Sade, Fourier, Loyola, Tel Quel-Seuil, 1971) ou a negação racional da moralidade enquanto acto subversivo e autonomizador do sujeito burguês (Theodor W. Adorno; Max Horkheimer, Dialektik der Aufklärung, Querido, 1947), a obra do Marquês foi prontamente censurada e o infeliz autor encarcerado por muitos e bons anos. Nesse período, toda a porcaria jorrou em golfadas brutais. Choveu merda na Europa e as monarquias abriam a boca para a tragar (alusão encapotada a Salò o le 120 giornate di Sodoma, filme realizado por Pasolini em 1975, inspirado no romance Sádico Les 120 journées de Sodome ou L'École du Libertinage). Pedagogicamente, aconselho vivamente a obra do Marquês, visto ser altamente formativa. Desde as situações em que jovens e ingénuas ninfas eram ferozmente abusadas às orgias colectivas do "salve-se quem puder; quem não puder, que se foda!". A abordagem explícita a práticas sexuais era integrante do património literário desde cedo, mas Sade potenciou-a a expoentes infinitos. Como autor de um blog de javardices, fica neste espaço o mais sentido tributo a um dos escritores que tratou de forma mais literária a grosseria da sociedade. Já que o presente escriturário nunca irá atingir o Parnaso da excelência na escrita, remete para um exemplo da qualidade poiética da obra Sádica. Para ler o romance Histoire de Juliette ou Les Prospérités du Vice, clicar ici.

junho 03, 2008

Lembranças Caldenses

As Caldas da Rainha foram definidas por Luiz Pacheco da seguinte forma: "É uma terra muito bonita que tem um parque muito catita." ou "é a terra onde melhor se caga porque é a terra onde melhor se come." (O caso das criancinhas desaparecidas, Círculo de Leitores, 1981). Para o autor, é uma terreola onde se cruzam diversos aspectos das suas memórias. Obnubiladas pela estratificação sedimentar da passagem do tempo, as rememorações dessa cidade integram-se num processo de reavaliação de um passado inexistente, tal como um mau romancista o empreenderia. Mencionando en passant o jardim, no qual idosos e infantes ocupam parte das sua faina diária de tonturas de barata (e onde se pode remar furiosamente até a exaustão) e as famigeradas cavacas, as Caldas oferecem outros atractivos. Um elemento cultural centrípeto neste localidade é a cerâmica. O leitor ter-se-á automaticamente lembrado de determinados objectos de olaria de configuração fálica. Não será, de todo, a presente abordagem, pois seria demasiado imediato num texto desta natureza. Na década de 80 do século XIX, foi aí fundada a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, actividade coordenada pelo artista plástico e publicista Rafael Bordalo Pinheiro. Cedo se estabeleceu no panorama nacional pelas suas faianças decorativa e artística. Paralelamente, nas Caldas nasceu José Malhoa, esborratador de telas. Não confundir, por favor, com o malabarista da glote e pai de uma boneca insuflável que lançou o fonograma intitulado Eu vou a todas (Espacial, 2005). Gargantas à parte, a cidade das Caldas dispõe de recentemente reactivadas termas indicadas para o tratamento de variadas maleitas do foro respiratório, reumático e dermatológico. O autor desconhece os tratamentos efectuados, pois o âmbito de actividade das milagrosas águas não abrange doenças venéreas. Paralelamente, germinou uma instituição de ensino superior empenhada em formar e creditar alguns freaks para as diversas áreas da vida artística nacional. Escusado será dizer que o mais valioso contributo que esses agentes poderiam, eventualmente, entregar ao meio cultural autóctone seria a transformação de amálgamas informes de argila em modelos perfeitos da genitália masculina. Com paciência e algum engenho, tornar-se-ia aceitável legitimar a cerâmica fálica como uma alegoria off para o Dasein heideggeriano, em que o Homem desamparado é lançado ao Mundo (Sein und Zeit, 1927). Este texto consistiu numa extensa enumeração de lugares-comuns. Pedimos desculpa a António Vitorino pela usurpação da metodologia que tanto nos encanta nas noites de Segunda-Feira da RTP. À semelhança de certos documentários patrocinados pelo serviço público televisivo (financiado pelo contribuintes e anunciantes), desconhecemos se este périplo turístico pelas localidades lusas irá prosseguir em próximas edições.