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setembro 17, 2008
junho 26, 2008
"Isto é verídico!"
Apanho o eléctrico em Campanhã. Peço antecipadamente perdão aos portuenses, mas uma coisa amarela que se desloca sobre carris àquela velocidade é, na minha óptica, um eléctrico. Um 28 mais modernaço e com menos carteiristas. De tal forma que o Carlos do Carmo pondera incluir o fado O Amarelo da Metro do Porto (letra de Valentim Loureiro e música de Leonel Nunes) num dos próximos discos. Uma augusta personagem faz a sua entrada vociferando para todo o mundo e ninguém. Ares de Moisés da Ribeira, profeta de asilos de mentecaptos, olhar imperscrutável. Confesso não ter prestado atenção, visto estar concentrado numa companheira de viagem. De tromba, parecia arrasada por um cilindro do Instituto das Estradas de Portugal. A seu favor, mostrava umas tetas capazes de produzir leite na mesma quantidade que a OPEP extrai crude. Espécime tresloucado, o insano entabula conversação com a carruagem até se fixar em crianças e grávidas, iniciando uma exortação à infância. Qualquer pessoa atenta repara que, actualmente e nas grandes metrópoles (Londres, Nova Iorque, Porto ou Fernandinho), está toda a gente grávida, homens inclusive. É caso para dizer: o Inverno não foi assim tão frio, caramba! O mais bizarro foi o teor da conversa pública. Começando por enaltecer a infância, rapidamente transborda para um: "-E há quem viole crianças! Esses é que deviam ser todos mortos!" Repetidas vezes invectivou contra os pedófilos até que fixou a sua atenção num rapaz de cerca de seis anos (idade atribuída pela proverbial ignorância do autor, que não destrinça entre um porco-espinho e uma criança com gel no cabelo, tendo, amiúde, pontapeado o animalzinho por engano). A partir daí, instalou-se o delírio convulsivo na enunciação de premissas. Alguns comentários totalmente despropositados dirigidos à criança foram: "-Respeita a tua miúda, eu sempre respeitei a minha" ou "-Quando eu ia às meninas, precavia-me sempre, por isso nunca apanhei nada, nem chatos, nem nada!". Na última proposição, a desgraçada mãe ainda procurou tapar os ouvidos ao filho, mas tarde de mais. Parafraseando um dos maiores jornalistas de sempre, funcionário da BBC durante anos e cuja pronúncia do apelido por ingleses causava geral hilaridade entre os seus compatriotas: "-E esta, hein?"

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junho 05, 2008
Bestiários

Até este ponto, o blog tem consistido numa romagem de agravados (ou será agrafados?) ou num ainda miudinho bestiário. O termo bestiário designa um universo heterogéneo de publicações que discorrem sobre a fauna. Profusamente iluminados (de grafismos e de razão), contribuiram de forma decisiva para a criação medieval de modelos zoológicos do mundo envolvente. Posteriormente, diversas obras recorreram ao modelo zoológico e taxonómico enquanto matriz generativa das construções semânticas. A emergência dos paradigmas científicos modernos e positivistas e a consequente transferência desses valores para a literatura permanece marcante no estabelecimento do romance-bestiário. La Bête Humaine, romance redigido por Émile Zola e publicado em 1890, evidencia-se no interior dessa tradição. Além de transsubstanciarem os pensamentos em discurso, os autores deste espaço criaram, extemporanea e indavertidamente, um pequenino bestiário da sociedade contemporânea. Simultaneamente, intersectaram-se diversas referências às alimárias e uma metabolização das mesmas numa forma disforme. Os autores posicionam-se num limbo entre bestas e bestiais (nessa mesma ordem e por essa hierarquia de importância). Contudo, nunca se afirmarão bestialistas. Por muito insinuante que o aspecto de algumas ovelhas possa aparentar, em especial enquanto ruminam numa géstica lânguida, essas práticas são assinaladas como doentias e contraproducentes pelos escribas deste blog. O parecer altamente abalizado de Ayatollah Khomeini autorizava a mantença de rotinas sexuais com animais, desde que o bicho em questão fosse sacrificado após o orgasmo. Nem tudo se traduzia em prejuízo pois, apesar da carne impura de uma desgraçada cavalgadura que transitava no local errado no momento inoportuno não poder ser traficada e consumida na aldeia, era permitida a sua transacção em povoações circunvizinhas. Encontra-se finalmente explicada a desconfiança em relação à proveniência da carne comerciada nos mercados actuais. Pergunta: que se passa com o Brasil para exportar tanta carne de vaca? Excedentes produtivos ou abusos reprodutivos? Prosseguindo a senda pedagógica deste espaço, afixamos a ligação para um dos mais acutilantes bestiários da literatura em português, nomeadamente Os gatos, de Fialho de Almeida.
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