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maio 29, 2009
maio 03, 2009
novembro 09, 2008
agosto 23, 2008
Princípio de Realidade
Todos temos pelo menos um amigo que pensa que qualquer mulher que lhe responda demonstra uma paixão assolapada escondida no mais íntimo do seu ser. Essa alucinação mostra um défice naquilo que Sigmund Freud designou por "princípio de realidade" (Neue Folge Der Vorlesungen Zur Einfürung in Die Psychoanalyse, Wien: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 1933). A ausência total de noção do mundo real é um traço recorrente em algumas personalidades claramente psicóticas. Quando a mesma pessoa revela em público: "-Os meus peidos não cheiram mal" deve ser levado a sério e prestes internado numa casa para maluquinhos. Um dado relevante até agora ocultado pelo narrador: a alimária não dispõe de sentido olfactivo devido a uma doença do foro respiratório. Ou seja, porque não consegue cheirar, depreende que não há cheiro. O subjectivismo empirista levado ao extremo. Isso torna-o um fantástico estudo de caso para a validação da filosofia de George Berkeley (A Treatise Concerning the Principles of Human Knowledge). Nesse importante tratado, central no desenvolvimento do idealismo alemão (causando grande impacte no pensamento de Fichte), o autor explana uma teoria que se baseia na constituição de um Mundo exterior de Ideias. Criticando o empirismo postulado por John Locke, Berkeley afirma que, se o conhecimento humano se baseasse exclusivamente na percepção e se esta apresentasse anomalias, o sujeito construiria um Mundo distorcido. Um mundo distorcido em que o sujeito em causa se revê como um conquistador femeeiro, quando toda a gente sabe que deve ter as palmas das mãos mais peludas que o Tony Ramos. Enfim, um verdadeiro quadro de Dali. A coisa torna-se mais grave quando o espécime tenta cantar sobre a música emitida pelo auto-rádio sem acertar uma única nota, mas considerando-se um autêntico Sinatra. Por vezes, este autor pensa que se está a tentar bater o recorde do Guiness para a conversa mais estúpida de todos os tempos. Desde megalomanias empresariais à importação de Viagra da China, tudo é assunto aflorado e posteriormente esmiuçado nessas tertúlias. Todavia, tudo refina no que toca à interacção com o sexo feminino. Que o presente escriba saiba, é uma psicopatologia grave entender que uma pessoa que o repele com asco se encontra perdidamente enredada num amor que desponta. Aliás, esse tipo de relação foi alvo de diversas resoluções judiciais fascinantes. Este autor requer, encarecidamente, que nenhuma empregada de balcão sorria na presença desse sujeito cognoscente, sob pena de assédio na sua forma mais explícita e infantil possível. Grow up, will you?

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julho 14, 2008
Abriu a época de caça na Quinta da Fonte
Para quem esteve atento aos frescos eventos de fogo de artifício num bairro periférico da periferia de Lisboa (o que o situa entre o Burkina-Faso e o Burundi), devem ser destacados alguns itens. Em primeiro lugar, que processo leva a que duas minorias étnicas, as quais os media insistem em apontar como naturalmente propensas à criminalidade (contrariando a opinião abalizada de Michel de Montaigne, erroneamente atribuída a Jean-Jacques Rousseau no que toca ao "bom selvagem"), em especial à criminalidade violenta, falhem tantos tiros? Se o leitor reparar com atenção, pode entrever o total desperdício de munições ao longo do filme. Pior, como é que grupos étnicos que treinam numa carreira de tiro desde a vida intra-uterina (informação corroborada por alguns prestigiados órgãos de comunicação social) disparam uma quantidade tão elevada de chumbadas às paredes? É a total descredibilização do mito urbano que associa a coloração da tez à facilidade em manusear armas de fogo. Mais grave, as movimentações das várias equipas tácticas no teatro de operações revelaram um amadorismo proverbial, assemelhando-se a um agrupamento de vizinhos desavindos entendendo-se reciprocamente ao zagalote. Não admira que os portugueses sejam dos povos menos qualificados da Europa. Para suportar esse triste facto bastou assistir ao incompreensível espectáculo emitido a partir da Quinta da Fonte. "Much ado about nothing" diria Shakespeare. Um verdadeiro evento de pirotecnia inofensiva do qual resultaram apenas nove feridos. O ratio tiros disparados/vítimas efectivas foi mais baixo que o índice de produtividade da função pública numa manhã de Segunda-Feira. É revoltante falar de qualificação num país no qual, do universo total de homicídios, apenas uma tangencial franja se refere a homicídios qualificados. Contudo, o actual escriba deposita as maiores esperanças no programa Novas Oportunidades. Talvez estimule a pontaria dos pretos e ciganos de forma a que, da próxima vez que se tornem notícia, seja por uma precisão de criar inveja aos snipers do Marine Corps. One shot, one kill. Mas que isso se desenrole no bairro "deles"...

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junho 30, 2008
junho 03, 2008
Lembranças Caldenses
As Caldas da Rainha foram definidas por Luiz Pacheco da seguinte forma: "É uma terra muito bonita que tem um parque muito catita." ou "é a terra onde melhor se caga porque é a terra onde melhor se come." (O caso das criancinhas desaparecidas, Círculo de Leitores, 1981). Para o autor, é uma terreola onde se cruzam diversos aspectos das suas memórias. Obnubiladas pela estratificação sedimentar da passagem do tempo, as rememorações dessa cidade integram-se num processo de reavaliação de um passado inexistente, tal como um mau romancista o empreenderia. Mencionando en passant o jardim, no qual idosos e infantes ocupam parte das sua faina diária de tonturas de barata (e onde se pode remar furiosamente até a exaustão) e as famigeradas cavacas, as Caldas oferecem outros atractivos. Um elemento cultural centrípeto neste localidade é a cerâmica. O leitor ter-se-á automaticamente lembrado de determinados objectos de olaria de configuração fálica. Não será, de todo, a presente abordagem, pois seria demasiado imediato num texto desta natureza. Na década de 80 do século XIX, foi aí fundada a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, actividade coordenada pelo artista plástico e publicista Rafael Bordalo Pinheiro. Cedo se estabeleceu no panorama nacional pelas suas faianças decorativa e artística. Paralelamente, nas Caldas nasceu José Malhoa, esborratador de telas. Não confundir, por favor, com o malabarista da glote e pai de uma boneca insuflável que lançou o fonograma intitulado Eu vou a todas (Espacial, 2005). Gargantas à parte, a cidade das Caldas dispõe de recentemente reactivadas termas indicadas para o tratamento de variadas maleitas do foro respiratório, reumático e dermatológico. O autor desconhece os tratamentos efectuados, pois o âmbito de actividade das milagrosas águas não abrange doenças venéreas. Paralelamente, germinou uma instituição de ensino superior empenhada em formar e creditar alguns freaks para as diversas áreas da vida artística nacional. Escusado será dizer que o mais valioso contributo que esses agentes poderiam, eventualmente, entregar ao meio cultural autóctone seria a transformação de amálgamas informes de argila em modelos perfeitos da genitália masculina. Com paciência e algum engenho, tornar-se-ia aceitável legitimar a cerâmica fálica como uma alegoria off para o Dasein heideggeriano, em que o Homem desamparado é lançado ao Mundo (Sein und Zeit, 1927). Este texto consistiu numa extensa enumeração de lugares-comuns. Pedimos desculpa a António Vitorino pela usurpação da metodologia que tanto nos encanta nas noites de Segunda-Feira da RTP. À semelhança de certos documentários patrocinados pelo serviço público televisivo (financiado pelo contribuintes e anunciantes), desconhecemos se este périplo turístico pelas localidades lusas irá prosseguir em próximas edições.
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junho 02, 2008
Literatura de Parede
Neste espaço de relevante missão informativa irei discorrer sobre literatura de parede. Desenganem-se os leitores mais versados e cosmopolitas, pois o autor não realizará uma divagação sobre essa praga que assola transversalmente o espaço público nacional (ver Between Facts and Norms, de Jürgen Habermas, MIT Press, 1992), o graffiti. Por muito interesse que suscite o decalque de práticas artísticas urbanas de sociedades pós-industriais e pós-modernas por países pré-desenvolvidos e pré-letrados, os MC's da horta e as beatboxes do arado terão que aguardar que o foco desta ribalta se lhes aflore em momento oportuno. Quando me refiro a literatura de parede, aponto os aforismos redigidos nas paredes e portas de casas de banho públicas. Em qualquer terminal de transportes o leitor encontrará genuínas filigranas de sabedoria, nacaradas no decorrer dos momentos mais atreitos à meditação filosófica. Não será por acaso que Rodin decidiu colocar O pensador naquela posição específica. Paralelamente à divulgação de identificações e contactos para práticas sexuais pouco ortodoxas (o autor não apresenta reservas no que toca a actividades sexuais não ortodoxas, mas apenas não partilha do entusiasmo dos escribas latrinários acerca das afixadas, tanto mais por envolverem dois ou mais elementos do sexo masculino), são editados textos de ordem vária.

Sociologia, Filosofia, Antropologia, Psicologia incluem as temáticas preferenciais desses Walter Benjamins de sentina. Algumas gemas finamente lapidadas foram transferidas para as superfícies desses espaços por via da caligrafia (exemplos do melhor cursivo inglês encontram-se expostos nos locais mais inusitados) ou do entalhe. A omnipresença de reflexões penetrantes como "Se tens amor á nação, põe no cu o que tens na mão!" (citação conforme o original, ortografia inclusive) ou "Lá fora és o maior, mas aqui cagas-te todo", ambas de autor incógnito, nos recintos de introspecção estimula grandemente a criatividade alheia. Contudo, o universo discursivo nesses espaços públicos (cá está o Habermas outra vez) é heteróclito e altamente abrangente. Prova da abundância de temáticas e léxicos ocorrente nesse género literário é a interessante compilação de textos realizada por André Vasques e intitulada Um presente de ânus - Antologia da Poesia de Retrete (Garrido Editores, 2002). Essa selecção apresenta uma panorâmica alargada sobre textos encontrados e produzidos em casas de banho, demonstrando que persistem, em paralelo, diversas categorias de concreção (e excreção) nesses refúgios. Sic transit gloria mundi.

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