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outubro 21, 2008

Preconceito e Discriminação

Dito isto, so tenho a acrescentar:

"Vai-te foder, paneleiro de merda!"

agosto 26, 2008

Cave insonorizada

Não, caro leitor (no singular, claro está). Este artigo não se focará na selvajaria exercida por Josef Fritzl na sua própria família. Se, por um lado, o homem queria apurar a raça Fritzl pela forma mais extrema de endogamia, incesto e sequestro não são práticas toleráveis num estado que já nos doou alguns dos maiores democratas da História (Klemens Wenzel von MetternichArnold Alois Schwarzenegger, para não mencionar Adolf Hitler) O incesto, prática reiterada pelo sequestrador foi tema de diversos trabalhos académicos. Sigmund Freud (outro austríaco famoso) editou a sua obra Totem und Tabu: Einige Übereinstimmungen im Seelenleben der Wilden und der Neurotiker (Leipzig/Wien, Hugo Heller, 1913), o que demonstra o interesse dos naturais desse território nessas práticas. Posteriormente, o antropólogo Claude Lévi-Strauss (empresário têxtil nas horas vagas, especializado em gangas), publicou Les Structures élémentaires de la parenté (Paris, Presses Universitaires de France, 1949), estudo central nas estruturas de parentesco, apontando a proibição do incesto como potenciador de alianças dentro das comunidades. Aparte dessas teorias, Fritzl procurava realizar em três gerações aquilo que a dinastia de Bragança teve 300 anos para conseguir: produzir um D. Duarte. A consanguinidade é uma coisa lixada. Contudo, a magnífica capacidade técnica de Fritzl, um verdadeiro pináculo da techne, poderia ter sido aproveitada em Portugal. Numa cave escura de uma chafarica da periferia, reunia-se regularmente um grupo de amigos para as maratonas alcoólicas e para discutir de forma aberta e sem complexos "se o rabo daquela era melhor que o rabo da outra". Escusado será avançar que estas não pertenciam ao grupo e seus namorados encontravam-se presentes manifestando um semblante carregado e repleto de perplexidade. A partir de determinada altura, alguém decidiu instalar um acordeão de botões numa mesa (sim, leram bem, um acordeão de mesa) e um camarada passava lá as noites a entreter as massas com musiquinhas de baile. No fundo, era um acordeonista algo descaído que chagava a malta até à exaustão. Por isso, senhor Fritzl, insonorize só mais uma cave antes de ir tomar duche com os seus novos amigos do sabonete.


agosto 23, 2008

Princípio de Realidade

Todos temos pelo menos um amigo que pensa que qualquer mulher que lhe responda demonstra uma paixão assolapada escondida no mais íntimo do seu ser. Essa alucinação mostra um défice naquilo que Sigmund Freud designou por "princípio de realidade" (Neue Folge Der Vorlesungen Zur Einfürung in Die Psychoanalyse, Wien: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 1933). A ausência total de noção do mundo real é um traço recorrente em algumas personalidades claramente psicóticas. Quando a mesma pessoa revela em público: "-Os meus peidos não cheiram mal" deve ser levado a sério e prestes internado numa casa para maluquinhos. Um dado relevante até agora ocultado pelo narrador: a alimária não dispõe de sentido olfactivo devido a uma doença do foro respiratório. Ou seja, porque não consegue cheirar, depreende que não há cheiro. O subjectivismo empirista levado ao extremo. Isso torna-o um fantástico estudo de caso para a validação da filosofia de George Berkeley (A Treatise Concerning the Principles of Human Knowledge). Nesse importante tratado, central no desenvolvimento do idealismo alemão (causando grande impacte no pensamento de Fichte), o autor explana uma teoria que se baseia na constituição de um Mundo exterior de Ideias. Criticando o empirismo postulado por John Locke, Berkeley afirma que, se o conhecimento humano se baseasse exclusivamente na percepção e se esta apresentasse anomalias, o sujeito construiria um Mundo distorcido. Um mundo distorcido em que o sujeito em causa se revê como um conquistador femeeiro, quando toda a gente sabe que deve ter as palmas das mãos mais peludas que o Tony Ramos. Enfim, um verdadeiro quadro de Dali. A coisa torna-se mais grave quando o espécime tenta cantar sobre a música emitida pelo auto-rádio sem acertar uma única nota, mas considerando-se um autêntico Sinatra. Por vezes, este autor pensa que se está a tentar bater o recorde do Guiness para a conversa mais estúpida de todos os tempos. Desde megalomanias empresariais à importação de Viagra da China, tudo é assunto aflorado e posteriormente esmiuçado nessas tertúlias. Todavia, tudo refina no que toca à interacção com o sexo feminino. Que o presente escriba saiba, é uma psicopatologia grave entender que uma pessoa que o repele com asco se encontra perdidamente enredada num amor que desponta. Aliás, esse tipo de relação foi alvo de diversas resoluções judiciais fascinantes. Este autor requer, encarecidamente, que nenhuma empregada de balcão sorria na presença desse sujeito cognoscente, sob pena de assédio na sua forma mais explícita e infantil possível. Grow up, will you?


junho 09, 2008

Viver Mata

"- Era um descafeínado com adoçante, ó fachavor!". Constatei que se encontrava à minha beira um verdadeiro Gil Eanes de subúrbio, intrépido e extemporâneo clone do navegador de regiões indómitas que dobrou o Bojador em quatro, sobraçou-o e veio entregá-lo a D. Duarte. Numa altura de amplificada comercialização de produtos esbulhados dos seus ingredientes nefastos (ver, por exemplo, Slavoj Zizék, A Cup of Decaf Realityaqui) e de promoção de estilos saudáveis de vida, emerge um contrasenso. Viver mais e melhor implica uma renúncia à própria vida? Pelos vistos, na opinião ajuizada pelo Gil Eanes de balcão, a resposta é efectivamente afirmativa. O autor confidencia a anutrição da mínima fímbria de respeito por esse tipo de indivíduos cujo núcleo das práticas consumistas se foca em objectos virtuais amputados da sua essência. Dados os horizontes expandidos no que toca à selecção e escolha constituintes da sociedade actual, encontram-se pessoas cujas preferências gustativas recaem sobre o descafeínado em detrimento do café. Que mais poderá estar reservado para o futuro: ingerir vinho sem álcool, melancias sem grainhas, um Benfica que sabe jogar à bola, um Jorge Lima Barreto virtuoso do teclado? O Apocalipse manifesta-se ao virar da esquina (e numa esquina do Cais do Sodré, claro está). Um aspecto inquietante da correnteza dessas práticas é o alastramento da descafeinização às diversas esferas da vida humana e consequente colonização da vida privada pelos mitos da salubridade (Baudrillard, Jean, Pour une critique de l’économie politique du signe, Paris: Gallimard, 1972). Daí o autor defender um boicote internacional ao descafeínado, aos adoçantes e à cerveja sem álcool. Antes que seja tarde demais. Termino com a inclusão de um sábio provérbio galego: "para pescar o rodaballo hai que mollar o carallo".