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julho 04, 2008

Sonetos

De forma a destemperar este espaço da recente primazia atribuída a textos em língua inglesa, os autores afixam um exemplo de ouro-de-lei na escrita portuguesa:

Tanto de meu estado me acho incerto, 
Que em vivo ardor tremendo estou de frio; 
Sem causa, juntamente choro e rio, 
O mundo todo abarco, e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto: 
Da alma um fogo me sai, da vista um rio; 
Agora espero, agora desconfio; 
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando; 
Num'hora acho mil anos, e é de jeito 
Que em mil anos não posso achar um'hora.

Se me pergunta alguém porque assi ando, 
Respondo que não sei, porém suspeito 
Que só porque vos vi, minha Senhora.

(RHYTMAS / DE LVIS DE CAMOES, / Diuididas em cinco partes. / Dirigidas ao muito Illustre senhaor D. Gonçalo Coutinho. / [desenho] / Impressas com licença do supremo Conselho da geral / Inquisição, & Ordinario. / EM LISBOA, / Por Manoel de Lyra, Anno de M.D.Lxxxxv. / a custa de Esteuão Lopez mercador de libros.»)

junho 28, 2008

Bibi

Este texto não se reporta ao proprietário do anorak vermelho com melhor corte a figurar na televisão. Motorista acusado de, alegadamente, ter "empurrado o cocó" a diversas gerações de crianças desvalidas (que, na sua pobreza de Cristo, trajam exclusivamente roupa de marca). Facilitador de digestões, arguiriam alguns. Aparte maldoso: a Casa Pia de Lisboa mantém um grupo de gaitas-de-foles. Nunca a expressão inglesa blowjob foi mais sabia e adequadamente empregue. Excluindo a libido exacerbada comum a ambos, não se destrinçam elementos partilhados pelos dois Bibis. Basílio de Brito (que subscreve "Bibi" nas suas missivas) é um dos principais personagens do romance O primo Basílio, de Eça de Queirós. Janota, cosmopolita, sofisticado, mefistofélico, luciferino e devasso, embrenha a casta e burguesa prima numa rede de luxúria, metamorfoseando-a numa fodilhona de elevadíssimo coturno. Basílio urdiu uma trama sórdida de desenfado e consequente perdição, tão característica do entediante meio burguês da época. Um passatempo carnal que revela a elevada categoria do gentleman em questão, o qual, podendo optar por uma panóplia de actividades, decide partilhar uma fracção do seu atulhado calendário numa acção de formação da conaça familiar. Derramando os eflúvios da dissolução na prima enquanto o marido desta se encontra num local distante, esse cavalheiro só pode deter um estatuto de eminente herói para o universo masculino. Lanço aqui um apelo a todas matulonas que mantêm um enfadado casamento a abrir as bem torneadas e depiladas gâmbias aos amanuenses resposáveis pelo presente pasquim. Por favor, não encarem esse acto como vilipêndio aos sagrados votos enunciados na presença do Senhor (e na ausência destes senhores em particular), mas como uma espécie de mecenato cultural. De momento, poucas coisas poderiam agradar sobremaneira aos presentes escribas como longas sessões de pouca-vergonha no entrepernas de belas mulheres casadas. Isto porque, se emergir alguma turbação no horizonte da relação torna-se sempre possível sugerir-lhes a frutuosa actividade de "andar de baloiço nos cornos do marido". Na galeria queirosiana dos horrores, os editores do presente espaço admitem partilhar traços comuns com diversas personagens, sendo um misto do sobredito Basílio de Brito, João da Ega e Fradique Mendes. Qualquer dia, os autores também serão cônsules em Newcastle como tu, meu caro José Maria...


junho 25, 2008

Mihi irruma et te pedicabo

Um requesto frequente por parte de uma caterva de ávidos leitores tem sido textos que comportam três elementos: qualidade, religiosidade e locuções latinas. No que toca ao primeiro aspecto, os autores afirmam que, ao contrário de outros espaços, remetem, exclusivamente, para textos de qualidade superior ao próprio blog (o que, aparentemente, se traduz num manancial inesgotável de obras). Quanto à religiosidade, este fórum pretende publicitar uma perspectiva agnóstica, senão blasfema. Consequentemente, torna-se explicável  e verosímil a ausência de artigos desse teor (apesar da esfumada e rebuscada alusão à Opus Dei no último texto publicado). Realmente, os autores acusam o toque (linguagem esgrimística ou de Declaração Amigável) em relação às expressões latinas. Daí o devir do título do presente artigo, que, livremente vertido para língua portuguesa significa: faz-me um broche e eu enrabo-te. Ou, colocado de forma mais erudita: pratica sexo oral comigo, que eu retribuo com a introdução da minha verga pelo teu orifício anal acima. Tradução a meio-termo: faz-me um fellatio (a mais prazenteira locução latina), que eu rasgo-te o esfíncter à martelada. Expressão unissexo, que demostra a liberalidade de costumes, quer da Roma Antiga quer dos latinistas posteriores, a Igreja Católica. Neste caso em particular, os autores defendem o recurso a dois sexos diferentes e a uma distribuição específica de papéis nessa prática, reforçando a asserção náutica de que não atracam de popa. De forma a incluir textos de qualidade, de vincada edificação religiosa e abundantes em expressões latinas bíblicas, fica o elo para as primeiras edições dos Sermões de Padre António Vieira. Figura central na afirmação da dinastia de Bragança enquanto poder régio em Portugal e incansável defensor dos direitos das minorias brasileiras face à colonização. De tal forma que o presente autor, apesar de não dispôr de óculos de massa nem frequentar a ZDB (uma dolorosa declaração de interesses, tal como é requerida pelos mais conceituados órgãos de informação - Público, Diário de Notícias e Maria), assistiu ao filme de Manoel d'Oliveira sobre o prelado (Palavra e utopia, Madragoa Filmes, 2000). O traço que suscita maior preocupação é o conflito de cânones entre a apreciação individual do presente escrevinhador e a vox populi (olh'á expressão latina fresquinha!) concernente à obra do velho e rijo realizador. Para citar o próprio Vieira nas obras para as quais encaminhamos o estimado leitor: "A cegueira que cega cerrando os olhos, não é a maior cegueira; a que cega deixando os olhos abertos, essa é a mais cega de todas: e tal era a dos Escribas e Fariseus. Homens com os olhos abertos e cegos. Com olhos abertos, porque, como letrados, liam as Escrituras e entendiam os Profetas; e cegos, porque vendo cumpridas as profecias, não viam nem conheciam o profetizado".


 

junho 05, 2008

Bestiários


Até este ponto, o blog tem consistido numa romagem de agravados (ou será agrafados?) ou num ainda miudinho bestiário. O termo bestiário designa um universo heterogéneo de publicações que discorrem sobre a fauna. Profusamente iluminados (de grafismos e de razão), contribuiram de forma decisiva para a criação medieval de modelos zoológicos do mundo envolvente. Posteriormente, diversas obras recorreram ao modelo zoológico e taxonómico enquanto matriz generativa das construções semânticas. A emergência dos paradigmas científicos modernos e positivistas e a consequente transferência desses valores para a literatura permanece marcante no estabelecimento do romance-bestiário. La Bête Humaine, romance redigido por Émile Zola e publicado em 1890, evidencia-se no interior dessa tradição. Além de transsubstanciarem os pensamentos em discurso, os autores deste espaço criaram, extemporanea e indavertidamente, um pequenino bestiário da sociedade contemporânea. Simultaneamente, intersectaram-se diversas referências às alimárias e uma metabolização das mesmas numa forma disforme. Os autores posicionam-se num limbo entre bestas e bestiais (nessa mesma ordem e por essa hierarquia de importância). Contudo, nunca se afirmarão bestialistas. Por muito insinuante que o aspecto de algumas ovelhas possa aparentar, em especial enquanto ruminam numa géstica lânguida, essas práticas são assinaladas como doentias e contraproducentes pelos escribas deste blog. O parecer altamente abalizado de Ayatollah Khomeini autorizava a mantença de rotinas sexuais com animais, desde que o bicho em questão fosse sacrificado após o orgasmo. Nem tudo se traduzia em prejuízo pois, apesar da carne impura de uma desgraçada cavalgadura que transitava no local errado no momento inoportuno não poder ser traficada e consumida na aldeia, era permitida a sua transacção em povoações circunvizinhas. Encontra-se finalmente explicada a desconfiança em relação à proveniência da carne comerciada nos mercados actuais. Pergunta: que se passa com o Brasil para exportar tanta carne de vaca? Excedentes produtivos ou abusos reprodutivos? Prosseguindo a senda pedagógica deste espaço, afixamos a ligação para um dos mais acutilantes bestiários da literatura em português, nomeadamente Os gatos, de Fialho de Almeida.

junho 02, 2008

Literatura de Parede

Neste espaço de relevante missão informativa irei discorrer sobre literatura de parede. Desenganem-se os leitores mais versados e cosmopolitas, pois o autor não realizará uma divagação sobre essa praga que assola transversalmente o espaço público nacional (ver Between Facts and Norms, de Jürgen Habermas, MIT Press, 1992), o graffiti. Por muito interesse que suscite o decalque de práticas artísticas urbanas de sociedades pós-industriais e pós-modernas por países pré-desenvolvidos e pré-letrados, os MC's da horta e as beatboxes do arado terão que aguardar que o foco desta ribalta se lhes aflore em momento oportuno. Quando me refiro a literatura de parede, aponto os aforismos redigidos nas paredes e portas de casas de banho públicas. Em qualquer terminal de transportes o leitor encontrará genuínas filigranas de sabedoria, nacaradas no decorrer dos momentos mais atreitos à meditação filosófica. Não será por acaso que Rodin decidiu colocar O pensador naquela posição específica. Paralelamente à divulgação de identificações e contactos para práticas sexuais pouco ortodoxas (o autor não apresenta reservas no que toca a actividades sexuais não ortodoxas, mas apenas não partilha do entusiasmo dos escribas latrinários acerca das afixadas, tanto mais por envolverem dois ou mais elementos do sexo masculino), são editados textos de ordem vária.
 

Sociologia, Filosofia, Antropologia, Psicologia incluem as temáticas preferenciais desses Walter Benjamins de sentina. Algumas gemas finamente lapidadas foram transferidas para as superfícies desses espaços por via da caligrafia (exemplos do melhor cursivo inglês encontram-se expostos nos locais mais inusitados) ou do entalhe. A omnipresença de reflexões penetrantes como "Se tens amor á nação, põe no cu o que tens na mão!" (citação conforme o original, ortografia inclusive) ou "Lá fora és o maior, mas aqui cagas-te todo", ambas de autor incógnito, nos recintos de introspecção estimula grandemente a criatividade alheia. Contudo, o universo discursivo nesses espaços públicos (cá está o Habermas outra vez) é heteróclito e altamente abrangente. Prova da abundância de temáticas e léxicos ocorrente nesse género literário é a interessante compilação de textos realizada por André Vasques e intitulada Um presente de ânus - Antologia da Poesia de Retrete (Garrido Editores, 2002). Essa selecção apresenta uma panorâmica alargada sobre textos encontrados e produzidos em casas de banho, demonstrando que persistem, em paralelo, diversas categorias de concreção (e excreção) nesses refúgios. Sic transit gloria mundi.


maio 27, 2008

Sugestão de Leitura

Para os leitores que se interrogam sobre o que é que os autores deste espaço lêem, cá vai um pensamento higiénico. Tendo em conta a reduzida taxa de iliteracia deste país (parece suficiente perscrutar os tops das livrarias para confirmar essa asserção), venho recomendar um livro que ainda não consegui acabar de ler, mas que me parece um grande romance. Magnificamente escrito, combina as tensões entre as diversas personagens recorrendo a técnicas aditivas e a modelos estéticos e gráficos suficientemente interessantes para ser mencionados. Trata-se, claro está, da Cartilha Maternal, da autoria de João de Deus e publicada em 1878. Crime, sexo, suspense, enfim tudo o que o José Rodrigues dos Santos gostaria de incluir nos seus pacotes de papel com capa (vulgo "livros") condensados em várias dúzias de sílabas. Se repararem na capa, encontra-se referida a Livraria Bertrand. Por favor, não confundir com a editora que publicou recentemente a "autobiografia" de Tony Carreira. Qualquer semelhança será pura coincidência. Deixo aqui um excerto dessa narrativa apaixonante que irá suspender o leitor mais incauto num êxtase deleitado:

"Ai ui eu ia" (Deus, 1878:3)

Para os leitores mais exigentes, cá vai o endereço:


PS: Não nos responsabilizamos pelos danos causados.