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maio 17, 2009

No país dos sacanas

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glandulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.

Jorge de Sena, Quarenta anos de servidão (Lisboa: Moraes Editores, 1979).

maio 13, 2009

Qual é que é o tom?

Numa ensolarada tarde, um grupo de jovens (não confundir, por favor, com Escuteiros ou aglomerados de cariz paroquiano) encontrava-se a demonstrar as suas destrezas musicais a la intervalo de liceu, sentado nos confortáveis bancos de uma praça pública. Sorrateiramente, aproximou-se um camarada que logo pegou na guitarra e, dedilhando as suas cordas, inquiriu: "-Qual é que é o tom?" Silêncio gélido...O senhor repete o acorde e volta a perguntar: "-Qual é que é o tom?" Nesse momento, alguns dos mais musicalmente dotados (pelo menos de acordo com as suas próprias cabeças, as quais seriam muito úteis para pregar pregos, mas não para a capacidade alargadamente designada por raciocínio) tentam adivinhar e não acertam. O avaliador retruca: "-Então vocês andam aí a tocar e não sabem nada?" É preciso ter bem presente que os "guitarristas" ou guitarreiros encetaram um aturado processo de formação com o cura de aldeia, indivíduo mais interessado em política e em desempenhar a árdua função de capelão da família aristocrática do burgo do que em realizar um efectivo trabalho com as comunidades locais. Essa "escola" permitiu aos "músicos" dominar uma panóplia de cerca de seis acordes, os quais repetem até à actualidade (e exaustão), passados cerca de 15 anos. Contudo, poderão argumentar que, dados os requisitos musicais do repertório interpretado, não sentiram necessidade de acrescentar os conteúdos transmitidos, por via oral, pelo padreca. É fascinante como indivíduos que acabaram o liceu há mais de 10 anos não consideram ridículo "interpretar" e "compor" ao melhor estilo Mafalda Veiga. Aqui abro uma excepção para João Pedro Pais que, apesar de ter terminado a Casa Pia na equipa de luta greco-romana e sem ter que recorrer a fraldas (tarefa duplamente difícil, visto que dois homens musculados e suados vestidos de maillot a agarrarem-se selvaticamente numa instituição que albergava práticas pedófilas homossexuais permanece a este autor uma actividade suscitadora de suspeitas) tem uma estatura física de um aluno de liceu. Valha aos "guitarristas" a surdez colectiva e congénita dos co-habitantes da vilória, que os apoiam no matter what. No fundo, o interprelador encontrava-se coberto de razão ao afirmar que eles não tocavam um caralho. Contudo, por várias madrugadas uma maldição abateu-se sobre a sua casa e, misteriosamente, o seu sino/campainha repicava fortemente como que a perguntar: "-Ó Pá...qual é que é o tom?"


setembro 21, 2008

Justiça latina

Longe vai o tempo em que o Boletim do Ministério da Justiça português divulgava acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça com teor tão humano e erudito quanto este: “... Se é certo que se trata de crimes repugnantes que não têm qualquer justificação, a verdade é que, no caso concreto, as duas ofendidas muito contribuíram para a sua realização. Na verdade, não podemos esquecer que as duas ofendidas, raparigas novas, mas mulheres feitas, não hesitaram em vir para a estrada pedir boleia a quem passava, em plena coutada do chamado «macho ibérico». É impossível que não tenham previsto o risco que corriam; pois aqui, tal como no seu país natal, a atracção pelo sexo oposto é um dado indesmentível e, por vezes, não é fácil dominá-la. Ora, ao meterem-se as duas num automóvel justamente com dois rapazes, fizeram-no, a nosso ver, conscientes do perigo que corriam, até mesmo por estarem numa zona de turismo de fama internacional, onde abundam as turistas estrangeiras habitualmente com comportamento sexual muito mais liberal e descontraído do que a maioria das nativas.” (Boletim do Ministério da Justiça, n.º 390, Novembro de 1989). Contudo, neste Verão, o Supremo Tribunal italiano deliberou, num âmbito de um processo judicial por estupro, que: "I jeans attillati non sono una cintura di castità" (Os jeans justos não são um cinto  de castidade). A história é simples: um padrasto começou a esfregar manualmente a rata à enteada e ela reportou a ocorrência às autoridades competentes. O Manitas de Plata defendeu-se arguindo que num par de jeans apertados seria impossível colocar lá a mão sem "colaboração efectiva" da enteada. O leitor concerteza já se encontra enojado com a história. Se não, aconselho-o vivamente a procurar auxílio psiquiátrico. Todavia, este prólogo serve para introduzir a grande questão (este não é um trocadilho de pendor sexual referente ao caso do padrasto que areava a patareca da enteada): será que o macho latino está a receder? Não basta a autobiografia de Zezé Camarinha para explicar a situação. Continuamos com os role models masculinos de sempre: toureiros, forcados, motards e matrafonas. No fundo, os Village People numa versão autóctone. Como explicar a súbita mudança? A exposição mediática do Cláudio Ramos não explica tudo, apesar de contribuir definitivamente para criar um sentimento de insegurança. Ao contrário da maioria dos portugueses, o presente autor receia mais entrar numa casa de banho pública que em qualquer estação de serviço ou agência bancária lusa. Contudo, deve ser destacada a mudança central de mentalidade operada pelos tribunais italianos. Qualquer dia, os arguidos cumprirão tempo de prisão mesmo quando apresentarem as plausíveis justificações: "-Ela estava a pedi-las!", "-Amarrei-a na bagageira porque ela me convenceu!", "-Se há uma vítima, sou eu. Ela não tinha nada que se dobrar para apanhar a carteira quando eu estava com a sarda na mão!". Com uma justiça nesses moldes, onde se delimita a taradice e começa o crime? Requisito, encarecidamente, aos jurisprudentes deste torrão de testosterona que analisem estas conjunturas e elaborem um manual utilizável nessas embaraçosas situações. Parece que essa seria a primeira vez que o Professor Marcelo se poderia debruçar sobre o único assunto do qual é um eminente especialista. O distinto comentador até estranharia a proposta: "-O quê, pagarem-me para falar de coisas das quais realmente sei? Que afronta!" Para bem de todas as secretárias, empregadas de mesa e do próprio Marcelo Rebelo de Sousa, cá fica a sugestão.

agosto 17, 2008

Observação muito sábia

Esta foi roubada de forma assumida e simpática deste local absolutamente fascinante:

Shrewd observer"You've had way too much cock in your mouth to be vegan."

agosto 11, 2008

"-Vou às Mulheres!"

Este fugaz episódio ocorreu durante uma noite em que o álcool evolava o seu anestesiante eflúvio na cabeça do presente escriba. Porém, a sua veracidade foi confirmada no pós-guerra química estomacal do dia seguinte. Um companheiro ocasional de copos e conversa que, para não revelar a sua identidade, será denominado Pink Floyd foi o protagonista desse momento mágico. O Pink Floyd, resultado de uma árvore genealógica de alcoólicos frutos fermentados no meio rural da Saloiolândia, trabalhava com lixo. Quando o autor utiliza a expressão "trabalhava com lixo", emprega-a no sentido literal. O Pink era lixeiro, não era assistente social nem guarda prisional e, muito menos, porteiro da Assembleia da República. Herdeiro das sequelas de avoengo alcoolismo, Pink fazia jus ao seu património heráldico. Numa plácida e tépida noite de Julho, enquanto o proprietário da capela ao deus Dyonisos (estavam à espera da referência ao equivalente romano, não estavam? Cabrões! Lixei-os bem!) perorava acerca da putefice das sapateiras, que se espojavam com as dez patas abertas à espera que as comessem, apareceu o Floyd. Acampou ao balcão, onde filosofava fluentemente, na medida do possível, acerca de qualquer assunto de actualidade. Presumi que tecesse considerações ao programa nuclear iraniano. Enquanto aflorava as complexas teorias de fissão e fusão atómicas (seguramente era isso que chegava aos ouvidos do presente autor ou, pelo menos, aquilo que este entendia estar a ouvir), bebia calmamente a sua jola. O estimado leitor certamente reparou que o contador utiliza termos da gíria, de forma a enfatizar a demonstração da estirpe do mangas. À saída, Floyd assaltou o autor com a seguinte expressão "-Vou às mulheres!" antes de vestir o colete retroreflector e ligar a acelera. Entretanto este tabelião relembrou que, inconscientemente, a distinta personalidade protagonizou o momento do mais eivado republicanismo a que pôde presenciar. Num povoado em que, periodicamente, se realizava uma alegoria histórica ambulatória, o Pink foi abordado com a questão: "-E de que é que vais [vestido] este ano?" Retorno pronto e sábio: "-Vou de rei ou de outra merda qualquer!" Cremos que essa resposta não chegou aos ouvidos de D. Duarte ou do Rei dos Frangos, refastelado no seu sobranceiro castelo leiriense. 

julho 04, 2008

Saída nocturna

Esta historinha ocorreu numa cidade raiana não identificada, dada a conhecer por Paco Bandeira e pelas ameixas. Um senhor contínuo (actualmente promovido a Auxiliar de Acção Educativa), bastante reconhecido pela sua polidez e temperança, decidiu sair para a noite. A modorra e o tédio colavam-se-lhe ao corpo e espírito como película aderente. Encharcou-se em Old Spice e dirigiu a sua Zundapp para a cidadela-fortaleza. Entrado no dédalo urbano, inicia a busca de um passatempo nocturno. Absolutamente desprevenido, encontra uma peregrina da calçada, no seu vaivém pelo passeio. Entabula uma conversa casual e desinteressada, onde expõe os seus almejos de diversão, contanto que seja na rua, pois não dispõe de um fundo de maneio que lhe permita suportar estadias (mesmo que horárias). Discutiu com ela os serviços e os emolumentos correspondentes, tendo principiado a transacção. A meretiz transitou, à velocidade da queda, de peregrina a pé a peregrina de joelhos, esforçando-se para cumprir o contrato outorgado. Tarefa ingrata, viver de joelhos e com uma pila a tresandar de Old Spice na boca. Ao menos, um Calvin Klein ou Hugo Boss, que sempre demonstram alguma classe, apesar do ardor que causam na glande. Um pormenor quase insignificante maliciosamente ocultado pelo narrador até este ponto, mas do qual depende o desenrolar da acção dramática: a senhora padecia de uma enfermidade designada por epilepsia. No mais imprevenido dos momentos possíveis, iniciou-se o ataque e a doente ferrou com uma enérgica trinca o membro viril do supra-citado contínuo. Tal como certas raças de caninos, a prostituta mordeu e não largou. Este facto serve para ilustrar que, tal como os cães, algumas mulheres deveriam ser incluídas na lista de animais perigosos. O senhor ficou de tal forma agarrado à dentição da propiciadora de um prazer masoquista que urrou e uivou uma quantidade infindável de imprecações. A fornecedora de serviços encontrava-se de tal modo presa à fragância do Old Spice peniano que, no esforço do desabrochar (ou seja, libertar o utente da dentária ratoeira), foi necessário arremessar um rombo calhau da calçada bem na pinha da enferma. Caro leitor, esta narração encontra aqui o seu término. Contudo, presuma que o final não terá sido: e viveram felizes para sempre...

julho 01, 2008

Gelado de Cerveja

Ao início de uma especiosa tarde de Estio, numa refulgente e inoxidável gelataria, assisti a uma história de bêbedos mais interessante que qualquer das que protagonizei. Temporariamente transladado em Quarteira, essa Torremolinos formato porta-chaves ou Santo António dos Cavaleiros enxertada no cavalo do litoral algarvio, vivenciei a seguinte ocorrência: um esbranquiçado senhor aproximou-se do balcão da gelataria e pediu um gelado. Até aí, nada de particularmente fora de norma. Se solicitasse um cone de pomada para as hemorróidas, seria bizarro. Olhando para o âmbito da oferta, a criatura apresentou dificuldades de decisão (pensava eu). A funcionária indagou o sabor seleccionado pelo venerável ancião. Este, sustentado exclusivamente pelo balcão, retrucou: "-Pode ser de qualquer coisa. Não tem de cerveja?" A educada menina alegou que não dispunha de tal paladar, ao que o distinto e toldado senhor retorquiu: "-Então pode ser de qualquer sabor!" Tornou-se óbvio que nos encontrávamos atolados nesse ténis de perguntas e respostas raquetadas entre ambos. Após alguns minutos, o senhor exprime que o gelado se destina a oferta, o que maravilhou os presentes. Com quarenta graus, transportar um gelado à chapa do astro-rei afigura-se um acto de abnegada temeridade. Após a árdua selecção de um copo com dois sabores, o camarada efectuou um pedido insólito: "-Não dá para embrulhar?" Ao que a gelateira lhe sugere envolver o ditocujo sorvete em guardanapos, actividade rapidamente empreendida pelo cliente. Foi uma verdadeira alegria assistir ao percurso do senhor em direcção ao destinatário do gelado, bolinando em ziguezague numa rua ensolarada e perigosamente direita. Um verdadeira demonstração que valida a Teoria da Relatividade em detrimento da Geometria Euclidiana. Se calhar, o caminho mais curto entre dois pontos num espaço-tempo a quatro dimensões não é uma recta. E tivemos a prova.

junho 17, 2008

Armazenar

De acordo com reclamações recebidas, o teor deste blog não tem atingido os mínimos olímpicos da javardice. Ansiamos que essa falta seja suprida com este textículo. Após o visionamento de um fabuloso documentário sobre o sistema digestivo das aves, ocorreu-me uma epifania. Se as avezinhas, tão mal situadas na cadeia evolutiva, são dotadas de uma dilatação no esófago (vulgo "papo") para armazenar temporariamente alimento antes de um estômago muscular (conhecido por "moela" - cá está uma alusão às miudezas) o digerir posteriormente, porque é que o ser humano, em especial a mulher, perdeu essa estrutura? De momento, sobressaem-me milhentas utilidades para esse órgão. Uma dessas seria facilitar a regurgitação de alimento para a alimentação da prole (e Deus sabe quantas vezes tivemos que consumir refeições que tanto se assemelham a vómito de pássaro). Paralelamente, esse órgão permitiria um estádio intermédio entre o "cuspir" e o "engolir", possibilitando uma espécie de refeição diferida ou um late-night snack à base de langonha, para as mulheres interessadas. Com as inovações da Ciência, talvez se tornasse possível implantar uma espécie de sistema de refrigeração, de forma à batida de coco se servir sempre bem geladinha. Utilidade igualmente relevante seria a possibilidade de reaproveitamento, pois num período de valorização da reutilização, o "Rien ne se perd, rien ne se crée, tout se transforme" de Lavoisier toma proporções completamente distintas. Caro Charles Darwin, evolução o caralho!

maio 30, 2008

Pipis, miudezas e outras javardices

Nesta secção apresento uma reflexão sobre o teor deste blog, em particular em relação ao seu título. A expressão "pipis" encerra em si mesma uma multitude de significados. Em primeira instância, define um petisco confeccionado a partir de algumas vísceras de certos animais (ou "miudezas"). Por favor, reparem na tentativa de auto-referencialidade deste blog, almejando um sistema comunicativo fechado, mediante a teoria postulada por Niklas Luhmann. Concomitantemente, identifica uma forma infantilóide de designar a vulva (ou, de acordo com a terminologia hoteleira, "área de lazer"). Por último, etiqueta um indivíduo de elevado gabarito elegantemente vestido. Nos autores deste espaço sobrepõem-se as três definições. Estes apreciam largamente as vitualhas designadas por pipis (na forma de petisco ou de órgão sexual feminino) e enquadram-se no perfil do elegante pipi. A atestar este último e evidente facto pode ser destacada a segunda posição ex-aequo no Concurso O espécime masculino mais atraente da localidade na qual residem (cuja população excede, em grande escala, o universo demográfico de Nova Iorque, São Paulo e Pequim somados). Será igualmente relevante frisar que o primeiro classificado nesse certame foi um bicho-de-conta arraçado de Rotweiller que, literalmente, se enrolou na taça aquando da sua recepção. O Otto, anteriormente mencionado bicho-de-conta, tomou o galardão de forma tão visceral que olvidou a perna que teria que alçar para urinar. Tendo em conta a morfologia do bicharoco, muitos embaraços se esperam. Passando às miudezas, a expressão contém elementos altamente dúbios. Por um lado, classifica uma plétora de vísceras animais utilizadas para consumo humano. Por outro, e em especial na região do Porto, é utilizada para classificar uma infindável série de objectos reconhecidos pela sua diminuta extensão. Os autores revelam a sua simpatia por ambas as definições, reforçadas pelo apreço a coisas de diminuta extensão (tais como berlindes, caricas, isqueiros ou o sentido democrático de Cavaco Silva). No que concerne à expressão "outras javardices", entendo que se explica a si própria. Lanço um repto aos nossos atentos leitores das periferias (Tibaldinho, Vidigueira ou Lisboa) para que apresentem um significado alternativo a essa locução. Talvez em algumas regiões remotas do globo "outras javardices" signifiquem "boa tarde" ou "por favor, não urine no empregado".