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junho 19, 2009

O maior dos diplomatas portugueses actuais


E sim, eu sei que o Durão Barroso será reeleito...e para quando um primeiro-ministro Serra d'Aire? Saíria muito mais barato aos bolsos dos contribuintes...e seria fascinante servir-se granulado nos jantares oficiais de S. Bento. Paralelamente, poderíamos afirmar Portugal como uma democracia muito mais desenvolvida que a americana. Se, recentemente, os americanos (democratas) tiveram que escolher entre um africano e uma mulher, deveria ser dada aos portugueses a possibilidade de escolha entre um Serra d'Aire e um Porco Alentejano. Ou, num futuro próximo, entre uma abetarda e um lince da Malcata...

junho 06, 2009

Hino de Duran


(Mãos de
Edmundo Pedro, fotografadas por José Goulão)


Se tu falas muitas palavras sutis
E gosta de senhas sussurros ardís
A lei tem ouvidos pra te delatar
Nas pedras do seu próprio lar

Se trazes no rosto a contravenção
Muambas, baganas e nem um tostão
A lei te vigia, bandido infeliz
Com seus olhos de raios X

Se vives nas sombras frequentas porões
Se tramas assaltos ou revoluções
A lei te procura amanhã de manhã
Com seu faro de doberman

Se pensas que burlas as normas penais
Insuflas agitas e gritas demais
A lei logo vai de abraçar infrator
com seus braços de estivador

(Chico Buarque, Ópera do Malandro, Rio de Janeiro: 1978).

abril 25, 2009

Comemorações


Serve o presente texto para reflectir sobre o dia de hoje. Uma reflexão desinteressada focada em aspectos completamente irrelevantes, um pouco na esteira dos que tornaram Pacheco Pereira famoso. No dia de hoje desenrolam-se diversas comemorações do "25 de Abril" (incluo aspas graças ao esforço conjunto de Vasco Pulido Valente e Rui Ramos) e apenas penso numa ideia transmitida pelo interessantíssimo filósofo Roger Scruton no seu ensaio England: An elegy (London: Chatto & Windus, 2000). Scruton, um conservador empedernido, defensor do tweed e da caça à raposa (e, no mesmo caminho, do homoerotismo associado ao sistema das public schools britânicas), defende nesse livro de inspiração quasi-marxista (vide Benedict Anderson, Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism, London: Verso. 1983) uma ruptura entre celebração e realidade. O autor aponta que o esvaziamento da eficiência real de um evento é compensado pela sua hiper-celebração simbólica. Em termos lacanianos, o Real é traduzido para o Simbólico (com a consequente perda associada a esse processo). Dificilmente esse postulado poderia ser melhor aplicável ao "25 de Abril". Como referia o sociável e jovial José Mário Branco no FMI (Ser solidário, EMI-VC, 1982): "Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas". Poderia agora encetar um libelo acusatório a todos esses cabrões, filhos da puta, celerados, chulos, oportunistas e quejandos epítetos que celebram a data de hoje precisamente porque a mesma se tornou inóqua. Não o farei, porque creio que essas pessoas não merecem os meus insultos. Contudo, deixo um elo para um texto que, após o Tríduo Pachecal, representa uma visão in loco do evento que veio a ser semanticamente esvaziado de forma a legitimar uma choldra de oportunistas que se banqueteia com os parcos recursos de um país periférico. Este é para todos os que estiveram realmente envolvidos no processo democratizante e cuja voz já não pode ser ouvida. Quando os comemorarmos, não será de uma forma limitada e politicamente correcta, mas pela radicalidade efectiva das suas propostas.

Luiz Pacheco, O meu 25 de Abril

novembro 05, 2008

Still I rise

You may write me down in history
With your bitter, twisted lies,
You may trod me in the very dirt
But still, like dust, I'll rise.

Does my sassiness upset you?
Why are you beset with gloom?
'Cause I walk like I've got oil wells
Pumping in my living room.

Just like moons and like suns,
With the certainty of tides,
Just like hopes springing high,
Still I'll rise.

Did you want to see me broken?
Bowed head and lowered eyes?
Shoulders falling down like teardrops.
Weakened by my soulful cries.

Does my haughtiness offend you?
Don't you take it awful hard
'Cause I laugh like I've got gold mines
Diggin' in my own back yard.

You may shoot me with your words,
You may cut me with your eyes,
You may kill me with your hatefulness,
But still, like air, I'll rise.

Does my sexiness upset you?
Does it come as a surprise
That I dance like I've got diamonds
At the meeting of my thighs?

Out of the huts of history's shame
I rise
Up from a past that's rooted in pain
I rise
I'm a black ocean, leaping and wide,
Welling and swelling I bear in the tide.
Leaving behind nights of terror and fear
I rise
Into a daybreak that's wondrously clear
I rise
Bringing the gifts that my ancestors gave,
I am the dream and the hope of the slave.
I rise
I rise
I rise. 

Maya Angelou, And Still I Rise, New York, Random House, 1978

outubro 05, 2008

5 de Outubro

"Os costumes de administração foi o que deram: o País à beira da ruína; o desgraçado consumidor a braços com o imposto de consumo, que o leva à tuberculose e à miséria; o contribuinte cada dia mais incapacitado de panar as contribuições sempre crescentes; o proprietário disposto a abandonar as suas terras; o viticultor impossibilitado de colocar os seus vinhos."

Extraído do discurso de Afonso Costa na Câmara dos Deputados a 20 de Novembro de 1906.

agosto 31, 2008

Lendas e Narrativas

"Reina a canalha mais vil/neste branco, verde e tinto"
(João Ferreira-Rosa, "Portugal foi-nos roubado" in
 Ontem e Hoje, EMI-VC, 1996)

Era uma vez um condado estrategicamente localizado próximo de uma das mais ocidentais praias lusitanas (desculpa lá, ó zarolhão, mas tu não tiveste culpa de ser tão bom naquilo que fazias). Do alto de uma fraga, um sólido castelo mirava em redor. A mata de sobreiros estendia-se para o meio-dia e pelas suas copas soprava uma aragem húmida trazida pelos ventos marítimos. O território diminuto encontrava-se sob as ordens de uma terrível dinastia de senhores feudais, encabeçados por um aristocrata hirsuto, extraído de um romance de Walter Scott. Na corte pontificavam os mais respeitáveis e ilustres indivíduos, com destacada mercê para aqueles com uma língua especialmente instruída nas técnicas de lamber botas com frequência, brio e afinco. A outra facção mais representada não era a dos homens-bons nem a da arraia-miúda, por estranho que possa aparentar. Desde imemoriais tempos visigóticos, os bobos da corte alcandoraram-se num primaz lugar no condado. Este modelo de corte assumiu caracteres distintivos dos congéneres durante os processos simultaneamente pulverizadores e aglutinadores promovidos pelas chamadas monarquias feudais (Jacques Le Goff, L'Europe est-elle née au Moyen Âge?, Paris: Éditions du Seuil, 2003). Os bobos ocupavam um espaço destacado nas cortes medievais. Contudo, poucas dessas os incluíam na cúria, entidade responsável pela administração do território. No recôndito condado, a cúria era formada exclusivamente por saltimbancos da pior estirpe, tão salpicados de cabotinice que não alcançavam o desenfado de suas senhorias nos opíparos banquetes. Uma corte de bobos tristes não traz benefícios a ninguém. Como nas restantes possessões feudais, os senhores preenchiam os seus ócios com actividades várias. Desde que se acendeu a candeia da Humanidade nessas paragens, a falcoaria era um respeitável mester. Contudo, a corte local era tão pindérica que não possuía um único falcão. A única ave de presa criada na falcoaria do Conde Redondo era um bufo. Apesar do título de conde do senhor feudal, este mantinha um bufo real (Bubo bubo), numa clara inversão da hierarquia. O bufo real sobrevoava as diversas tabernas do burgo, onde caçava as conversas dos súbditos, transportando-a depois nas suas negras garras para as depositar nos ouvidos do falcoeiro-mor. Esse bufo era prodigioso, porque falava e recontava as narrativas captadas pelo apurado sentido de audição, por vezes obstruído por verdadeiras torrentes de cera, aproveitadas para polir o sobrado do paço condal. Um verdadeiro milagre da Natureza, cuja notoriedade no consumo de "mines pretas" e tabaco, únicos alimentos permitidos na sua dieta, se tornou lendária por toda a Cristandade. Em algumas ocasiões, a avis rara torcia os significados do que ouvia e aumentava a narrativa a seu bel-prazer, de forma a sentir-se menos insignificante na corte. Noutras, perseguia o possível conspirador numa clara estratégia de policiamento de proximidade. Um dos primeiros espiões avícolas da História. Esperemos que a ascensão através da delação empreendida pelo Bubo bubo possa ser imitada por uma miríade de colaços aspirantes a cortesãos. Seria da forma que se incrementaria o consumo de "mines pretas" na cona da puta que os pariu, a qual expeliria simultaneamente fumo de cigarro pelos lábios, à boa maneira dos reinos de Sião. A salvação premente seria recrutar besteiros de conto em número suficiente para dizimar essa praga a tempo. Talvez assim, pudesse o condado viver feliz para sempre...

agosto 25, 2008

I won't dance, don't ask me

"V- O Partido

1. Partido político e vanguarda da classe operária e de todos os trabalhadores, o Partido Comunista Português é um partido patriótico e internacionalista."

(extraído do programa do PCP)

Com uma vanguarda destas, a "classe operária" e "todos os trabalhadores" estão bem fodidos.

agosto 22, 2008

A revolução contínua (Mao)

"Para terminar: nessa indescritível apoteose feita ao Exército e à Marinha em Braga, ao comemorar-se o décimo aniversário deste movimento, milhares de pobres homens pobremente vestidos levantavam ao alto, para que fossem bem vistos de todos, cartazes com esta inscrição: a Revolução continua. E eu pergunto se, enquanto houver uma nuvem de perigo externo, um germe de desagregação interior, um português sem trabalho ou sem pão, a Revolução não há-de continuar!" 


António de Oliveira Salazar, Discurso proferido em Lisboa nas comemorações do ano X da Revolução Nacional, 28 de Maio de 1936. Publicado em Discursos e notas políticas, vol. II, Coimbra Editora, Lda., 1937


Pessoalmente, entre todos os Salazares, prefiro este:



agosto 10, 2008

junho 18, 2008

Dia da Raça

Em solidariedade com o nosso glorioso e sábio Presidente da República, uma autêntica orquestra formada exclusivamente por cavaquinhos, espécie de devaneio ao género Portugal dos Pequenitos para rir. Neste caso maviosos e harmónicos. E, particularmente, sem bombas de gasolina em Boliqueime. O combustível está demasiado caro para os autos-de-fé. Se o supremo magistrado na Nação se referia à Raça da I República ou à Raça do Estado Novo, ninguém sabe. Pessoalmente, presumo que se refira à Peugeot de "O leão mostra a sua raça." O slogan mais difundido pela cultura de massas enquanto o Sr. Silva atestava depósitos.

junho 11, 2008

Banalidades

Clichés, lugares comuns, chavões. Grande parte da interacção social transcorre da aplicação e cristalização dos mesmos. Nas mais diversas áreas sedimentaram-se locuções destinadas a simplificar o árduo processo de comunicação. A ilusão de partilha de referências através da exaustiva repetição de expressões auto-evidentes e, por vezes, totalmente esvaziadas de qualquer significado inteligível transforma as dinâmicas comunicativas numa simples troca de desgastadas manifestações. Os lugares-comuns encontram-se firmemente enraizados nos diversos campos, dotados de jargões específicos. Por exemplo, no elemento amoroso a expressão "Não consigo viver sem ti" encontra-se de tal modo erodida, que proponho a sua substituição por "És o estrume em que germina o meu amor". Metáfora rural num país agrícola, inspirada por José Mário Branco (Ser Solidário, 1982). No campo do futebol (e ele a dar-lhe), basta ver os comentários dos espectadores da Liga dos Últimos para compreender a emulação dos modelos promovidos por diversos jornalistas e paineleiros pelos espectadores desanimados. Quando assistimos aos adeptos de um clube militante das distritais (cujas instalações desportivas se resumem a um recinto pelado e a meio bidão para assar couratos) comentar: "a basculação lateral na transição defesa-ataque tem que melhorar" inquirimos sobre que tipo de cogumelos andam aqueles senhores a consumir. Mijando no penico da política, a diminuição do peso do Estado e a agilização de processos burocráticos continuam a ser propalados. Para quando um político que consolide o lugar-comum canonizado pelo inefável Alberto João Jardim: "Estou-me a cagar para Lisboa. Quero que a Assembleia da República se foda"? Isso sim, seria uma frase promocional fabulosa nas próximas eleições autárquicas. Contudo, a substituição do Lebenswelt (ou mundo vivido, cf. Edmund Husserl, Die Krisis der europäischen Wissenschaften und die transzentale Phänomenologie, Philosophia, 1936) por slogans publicitários traz enormes benefícios ao colectivo. Já imaginaram a trabalheira que seria ter opiniões próprias sobre diversas temáticas? E o bloqueio comunicativo que daí poderia advir? Que cafés seria possível frequentar sem temer pela segurança? Quanto a isso, não será nosso objectivo fornecer respostas, visto estas constituírem igualmente lugares-comuns. Outro estádio do mesmo processo é a galopante mudança de paradigmas sociais. Actualmente os segmentos comunicacionais não recorrem ao lugar-comum, metabolizam-no e transformam-se eles mesmos em clichés. Ser um Lugar-Comum. Desde o teatro popular renascentista à ópera cómica que os modelos dramatúrgicos se centram na enfatização de estereótipos imediatamente reconhecíveis (Paolo Gallarati, Musica e maschera, EDT, 1989) e como:

"All the world's a stage,
And all the men and women merely players: 
They have their exits and their entrances; 
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages."

(Wiilam Shakespeare, As You Like It, 1598-99)