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novembro 11, 2008

Rememberance Day

John McRae, Punch, December 8, 1915


outubro 05, 2008

5 de Outubro

"Os costumes de administração foi o que deram: o País à beira da ruína; o desgraçado consumidor a braços com o imposto de consumo, que o leva à tuberculose e à miséria; o contribuinte cada dia mais incapacitado de panar as contribuições sempre crescentes; o proprietário disposto a abandonar as suas terras; o viticultor impossibilitado de colocar os seus vinhos."

Extraído do discurso de Afonso Costa na Câmara dos Deputados a 20 de Novembro de 1906.

agosto 31, 2008

Lendas e Narrativas

"Reina a canalha mais vil/neste branco, verde e tinto"
(João Ferreira-Rosa, "Portugal foi-nos roubado" in
 Ontem e Hoje, EMI-VC, 1996)

Era uma vez um condado estrategicamente localizado próximo de uma das mais ocidentais praias lusitanas (desculpa lá, ó zarolhão, mas tu não tiveste culpa de ser tão bom naquilo que fazias). Do alto de uma fraga, um sólido castelo mirava em redor. A mata de sobreiros estendia-se para o meio-dia e pelas suas copas soprava uma aragem húmida trazida pelos ventos marítimos. O território diminuto encontrava-se sob as ordens de uma terrível dinastia de senhores feudais, encabeçados por um aristocrata hirsuto, extraído de um romance de Walter Scott. Na corte pontificavam os mais respeitáveis e ilustres indivíduos, com destacada mercê para aqueles com uma língua especialmente instruída nas técnicas de lamber botas com frequência, brio e afinco. A outra facção mais representada não era a dos homens-bons nem a da arraia-miúda, por estranho que possa aparentar. Desde imemoriais tempos visigóticos, os bobos da corte alcandoraram-se num primaz lugar no condado. Este modelo de corte assumiu caracteres distintivos dos congéneres durante os processos simultaneamente pulverizadores e aglutinadores promovidos pelas chamadas monarquias feudais (Jacques Le Goff, L'Europe est-elle née au Moyen Âge?, Paris: Éditions du Seuil, 2003). Os bobos ocupavam um espaço destacado nas cortes medievais. Contudo, poucas dessas os incluíam na cúria, entidade responsável pela administração do território. No recôndito condado, a cúria era formada exclusivamente por saltimbancos da pior estirpe, tão salpicados de cabotinice que não alcançavam o desenfado de suas senhorias nos opíparos banquetes. Uma corte de bobos tristes não traz benefícios a ninguém. Como nas restantes possessões feudais, os senhores preenchiam os seus ócios com actividades várias. Desde que se acendeu a candeia da Humanidade nessas paragens, a falcoaria era um respeitável mester. Contudo, a corte local era tão pindérica que não possuía um único falcão. A única ave de presa criada na falcoaria do Conde Redondo era um bufo. Apesar do título de conde do senhor feudal, este mantinha um bufo real (Bubo bubo), numa clara inversão da hierarquia. O bufo real sobrevoava as diversas tabernas do burgo, onde caçava as conversas dos súbditos, transportando-a depois nas suas negras garras para as depositar nos ouvidos do falcoeiro-mor. Esse bufo era prodigioso, porque falava e recontava as narrativas captadas pelo apurado sentido de audição, por vezes obstruído por verdadeiras torrentes de cera, aproveitadas para polir o sobrado do paço condal. Um verdadeiro milagre da Natureza, cuja notoriedade no consumo de "mines pretas" e tabaco, únicos alimentos permitidos na sua dieta, se tornou lendária por toda a Cristandade. Em algumas ocasiões, a avis rara torcia os significados do que ouvia e aumentava a narrativa a seu bel-prazer, de forma a sentir-se menos insignificante na corte. Noutras, perseguia o possível conspirador numa clara estratégia de policiamento de proximidade. Um dos primeiros espiões avícolas da História. Esperemos que a ascensão através da delação empreendida pelo Bubo bubo possa ser imitada por uma miríade de colaços aspirantes a cortesãos. Seria da forma que se incrementaria o consumo de "mines pretas" na cona da puta que os pariu, a qual expeliria simultaneamente fumo de cigarro pelos lábios, à boa maneira dos reinos de Sião. A salvação premente seria recrutar besteiros de conto em número suficiente para dizimar essa praga a tempo. Talvez assim, pudesse o condado viver feliz para sempre...

maio 29, 2008

Misturas

Recorrendo à definição proposta pelo Wikipedia:


"Uma mistura é constituída por duas ou mais substâncias puras, sejam elas simples ou compostas. As proporções entre os constituintes de uma mistura podem ser alterados por processos químicos, como a destilação. Todas as substâncias que compartilham de um mesmo espaço, portanto, constituem uma mistura. Não se pode, entretanto, confundir misturar com dissolver. Água e óleo, por exemplo, misturam-se mas não se dissolvem."

 

Partamos dessa coordenada: duas ou mais substâncias puras que se misturam mas não se dissolvem. Será possível encontrar substâncias puras? Miscíveis mas não dissolventes? Misturando o Valentim Loureiro com o José Mattoso (duas substâncias puras, a primeira de boçalidade e a segunda de erudição) qual seria a amálgama a obter? Conjecturo uma série de cenários prováveis na interacção social desse indivíduo (qual Frankenstein, or The Modern Prometheus). Por exemplo, uma comunicação integrada no programa de um colóquio universitário internacional: "- A sociedade estratificada do Portugal medievo apresenta traços semelhantes...aos cabrões filhos da puta que querem touros de cobrição para o Boavista!". Imergindo-nos nesses universos de ocorrência em maior profundidade, o caso pode prestar-se a embaraços terríveis. Por exemplo, durante uma partida de futebol entre o Boavista e o Belenenses: "- O árbitro é um gatuno, é pior que...o D. Pedro II, que roubou o trono e a mulher ao irmão!" Este acumular de situações apresenta-se-me como verdadeiramente indigno de uma personalidade resultante da mistura de substâncias puras. Pior, imaginem essa criatura no seu escritório, malevolamente etiquetado de "bar de alterne" por alguns elementos suspeitos (como agentes da autoridade, dirigentes desportivos ou fiscais municipais). "- Chafurdava nos teus biberões como...Como rebola as nádegas amarelas!/Cem olhos brasileiros estão seguindo/o balanço doce e mole de suas têtas...." (Carlos Drummond de Andrade, Cabaré Mineiro). Após estes instantâneos Dr. Strangelove, coloca-se uma nova questão: como separar os constituintes da mistura? As técnicas laboratoriais sugerem-nos variados processos: decantação, filtragem, centrifugação, cristalização, destilação e quejandas e incompreensíveis expressões terminadas em -ão ou -fia. Contudo, existirão procedimentos que permitam abiscoitar o apartamento total entre erudição e boçalidade? O presente texto apresenta-se enquanto momento auto-reflexivo no que toca à essência deste espaço. A exequibilidade da conjugação desses elementos enquanto realidade dialéctica configurar-se-á fulcral nesta construção narrativa. Termino com um pequeno apontamento desse pendor, da autoria de Elmano Sadino (mais conhecido por Bocage):


Que fio de ouro, que cabelo ondado,

piolhos não criou, lêndeas não teve?

Que raio de olhos blasonar se atreve,

que não foi de remelas mal tratado? 

Que boca se acha ou que nariz prezado 

aonde monco ou escarro nunca esteve? 

E de que cristal ou branca neve 

não se viu seu besbelho visitado?  

Que papo de mais bela galhardia 

que um dedo está do cu só dividido, 

não mijou e regra tem todos os meses?  

Pois se amor é tudo merda e porcaria, 

e por este monturo andais perdido, 

cago no amor e em vós trezentas vezes.